quarta-feira, julho 25, 2012

Adeus.

  
   A terra negra era de uma umidade corriqueira e incômoda. Os últimos pés que calcaram tal solo, calçados por sandálias italianas de salto fino, arrastaram-se vagamente até a saída de local tão repugnante aos olhos dos que ainda vivem. O vento balançara ligeira e sutilmente o vestido cinza, e, imitando a seda, uma lágrima gélida dançou pela têmpora da linda dama de semblante abatido. Os seus dedos delgados ousaram ainda secar o tímido marejar e se inseriram graciosamente na coreografia melancólica e fúnebre.

  Os dias voaram desde o enterro do marido e, na construção dos novos momentos, ela resolvera desagregar os tijolos que compunham os pilares do sofrimento, ao passo que convertia a dor em lembranças e construía o muro feito por essa nostalgia. E as sua saudade transformava-se numa dessas que pungem aos poucos, destilam a falta e salpicam no tempo a aflição da ausência, mas aquiescem que a felicidade achegue-se, sente-se e habite novamente no peito.

  Entre as estradas e entranhas da vida, com os olhos no horizonte e o amor materno a cingir o filho pequeno, ela aprendera e fixou na memória os caminhos que percorreu. Decorara principalmente os trejeitos do seu amado que se fora: o modo como ele andava sem pressa, o seu sorriso fulgurante que derreava os cantos da boca constantemente, as vezes em que ele esquecera o copo em cima do móvel da sala e a marca que essas repetições fincaram na madeira; cravando, gravando igualmente na memória e no coração cada gesto simples e tão sublime.

  Assim como um músico decora naturalmente o que compôs e o maestro fixa os seus gestos costumeiros ao ministrar uma orquestra, o amor foi introduzido nas veias, artérias e todas as articulações da jovem viúva. Decorara o dia do sepultamento, o local da sepultura, o cheiro das flores, o caminho da volta para casa e a quantidade de lágrimas que acariciaram tristemente a sua face, mas acima de todos esses detalhes tão melancólicos, ela decorara toda forma de amor e almejava ardentemente transmiti-la ao mundo – ao seu mundo e filho.

Este texto é um pouco antigo, isso é verdade, mas quis aproveitar o dia de hoje para retornar ao blog, retomá-lo para mim... Então achei que seria bom postar um texto antigo e um atual, gosto de ver as mudanças. Enfim, um feliz dia 25 de julho, parabéns a todos pelo Dia do Escritor.

quarta-feira, maio 23, 2012

Oscila.


 A mesa é medíocre, castigada pelo tempo e de um vermelho desbotado. Vacila entre um instante e outro quando um alguém cansado apóia em sua tábua os cotovelos. Atualmente, são os meus que a fazem oscilar fora de ritmo: direita e esquerda, esquerda e direita. Está em falso – concluo sem me importar, já estou tristemente adepto à falsidade. Eu tinha estrela nos olhos... Eu gostara de sorrisos, juro-te. Hoje não mais.

 Eu admirara e perscrutara cada linha tênue e sinuosa que ousara enfeitar rostos plácidos; época na qual eu não fizera distinção entre o bom e o ruim. Amara todo e qualquer derrear de lábios com o mesmo ardor. O meu, o seu, os de estranhos... A meu ver, cada sorrir era uma estrela a suplicar aplauso; e eu fizera questão de guardar o fulgor dos astros no meu olhar para que, futuramente, fossem os faróis dos sonhos eclipsados.

 Mas houve o dia em que um riso destacou-se e, silenciosamente, solicitou-me um amor tão grande quanto o esplendor de seu cadente luzir. Rogou-me um exclusivo amor e eu o dei. Talvez eu tenha excedido alguns limites – ou deveria dizer todos? Mas quando amo, eu perco os escrúpulos. Aliás, perdia-os quando amava...

 Entretanto, apesar dos ciúmes excessivos que sombreavam os meus olhos, todo o resplandecer celestial acumulado ao fitá-la – acrescido ao amor pueril ganido em meu peito – impediu-me, por um tempo, de pôr em prática os meus engenhosos desatinos e fez-me reavaliar algumas das traições.

 Antes, amor. Depois, temor. 
 Perdoei-a, mas a persegui. Perdi-a.

  E entre soluços e lembranças recordo todos os dias o momento em que a minha estrela retornou ao céu, enquanto sou abraçado por essas paredes silenciosas da cela de um hospício qualquer, debruçado numa mesa medíocre que eu nem sei se realmente existe.