Após acordar em uma manhã mormacenta de sábado, eu percebo-me inebriada ao passo que consumo o oxigênio e expiro o gás carbônico. O perfume exalado das flores recém-colidas caminha até a mim, adentra as minhas narinas – inflamando-as – e percorre ferozmente o meu sistema respiratório; Conduzindo-me a um agudo estado de êxtase. O cheiro doce das rosas, que nunca saberei a cor, golpeia efusivamente as paredes dos meus pulmões, como se planejasse expandir-se pelo resto do meu corpo. No entanto, recordo-me da última ocasião na qual as flores fizeram-se necessárias: O enterro do meu pai.
Abanei o ar com as mãos, afastando a nuvem nostálgica e deliberei, portanto, seguir o aroma que tanto se apraz em me seduzir – anseio descobrir qual cômodo da minha casa possui a fonte de perfume tão agradável. Porém, antes de levantar-me da cama eu concentro-me em analisar. Consigo imaginar perfeitamente as flores sinuosas que se aconchegam no vazo de cerâmica, – posto em cima da mesa esférica da sala – por um motivo que eu desconheço.
Ponho-me de pé sem alarde e com cautela para não tropeçar nos móveis, como de costume. Sigo com ímpeto em direção a porta do quarto, mas antes, dou uma singela olhadela no espelho atrás de mim, enquanto reflito sobre o pijama que me decora. Nós nunca nos veremos crescer, não é mesmo? – sussurro timidamente comigo mesma. Aquiesço, por fim, e caminho em direção a escada.
A sola do meu pé encontra o primeiro degrau e, a cada novo passo, um júbilo percorre o meu corpo, por notar o quão independente eu sou. Os meus passos cessam, assim como a escada. Eu escuto murmúrios baixos trazidos pelo vento, os quais me denunciam que alguma visita conversa com a minha mãe no escritório, o que me causa um sobressalto. Mas, penso de antemão que deve ser algum familiar para congratular-me, devido a minha estréia no teatro do bairro hoje a noite.
Vou de encontro a mesa, acaricio com a ponta dos dedos a dúzia de rosas e posteriormente afogo o meu rosto em sua maciez e perfume; E só despeço-me quando me convenço de que estou igualmente perfumada. Percebo automaticamente que o farfalhar das vozes, no cômodo a direita, transparece um nervosismo contido. Caminho apressada até a cozinha e apanho o primeiro copo que vejo, almejando imitar as séries e filmes nos quais as personagens põe-se a ouvir conversas atrás da porta.
Elevo o copo de vidro até a orelha esquerda, na esperança de ampliar a minha percepção auditiva – que já é singularmente aguçada. Cerro ao máximo os olhos, como se isso também me favorecesse, e concentro-me. Enquanto, enumero as características que as vozes deixam escapar em tons audíveis: acidez, confidência, dor, desespero... Por fim, ouço o nome do meu amado namorado balbuciado entre soluços. E a frase seguinte desvencilhou-me de toda a felicidade e expectativa que em mim se abrigaram nesta manhã cinza. Eu consegui escutar apenas uma parte da conversa, mas fora o suficiente para sentir os golpes impiedosos em minha face, deixando-me moribunda.
“Ele trazia apenas um buquê, uma aliança e um pedido. Estava a caminho daqui quando um carro o atropelou – foi fatal. As flores eu pus sobre a mesa.”
O copo dançou vivaz entre os meus dedos cálidos, enquanto eu permitia que as lágrimas igualmente caíssem – tão gélidas quanto o vidro. Eu pude ouvir o farfalhar do vento e logo em seguida o choque, tanto o meu quanto o do copo se espatifando no assoalho. Eu percebi o som fraco da porta ao ser aberta e os braços maternos e acolhedores me reerguerem ávidos.
De pé, eu tateei a mesa, peguei a aliança e corri para o meu quarto enquanto a circunferência queimava em meu dedo. As horas se arrastaram dolorosamente e as lágrimas tornaram-se íntimas do meu rosto, mas eu adormeci. Eu não fui ao teatro e na manhã seguinte a dor tamborilava em meu peito. Decidi por ir somente ao velório, aonde algumas pessoas me cumprimentaram com pêsames, mas eu não consegui pronunciar palavra alguma.
Desse dia em diante, os meus pés nunca mais tocaram o palco, embora, eu atue um pouco a cada dia. Atuo estar viva; Atuo ter me esquecido da conversa entrecortada que eu ouvira, há tempos, por trás da porta; Palavras que ecoam eternas em minha mente. Porém, todos os dias eu agradeço pelo amor que eu vivi e que ainda sinto. Agradeço aos céus por ter nascido cega – pois somente assim, eu não tive de guardar a lembrança do rosto do meu amado retorcido em dor, reluzindo a morte. Mas até hoje, a fragrância das flores permanece impregnada em meu nariz.
Pauta para o projeto Bloínques, 54ª edição conto/história.
Perdoem-me a extensão do texto. E devo confessar que não estou tão confiante quanto a minha participação nessa edição, mas enfim. No entanto, as palavras quiseram ser escritas desse modo, e assim eu o fiz. Grande beijo, e espero que tenham gostado. Agradeço verdadeiramente ao imenso carinho de todos e aos comentários sempre encantadores.