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terça-feira, fevereiro 26, 2013

Lunar


  
  Creio que com o passar dos anos não precisarei que o seu sorriso seja o meu Sol. Compreenderei que segundo a Física, ou mais do que isso, segundo a lógica basta-nos a estrela que nos aquece ao despontar ao leste todas as manhãs; e que se põe ao oeste e nos faz entardecer. Entardecerei às seis horas de um dia qualquer e entenderei que seu derrear de lábios será comum, perderá o fulgor, o poder hipnótico e a capacidade de esquentar a alma – a minha alma. Convencer-me-ei de que seus dentes são apenas dentes e de que seus olhos, outrora faiscantes, não são estrelas.

   Se um dia você teve luz própria, findou-se. Vejo isso agora, assim como noto a ausência de rastros seus. Foi-se rápido, cadente, fora astro. Não o é mais. Cruzara o céu sem rumo e eu aplaudira a sua partida. Pude comemorar efusivamente e de pé o final desse ciclo. Não fora o ano que rompera, mas sim nós e os nossos nós. Voltamos ao pronome singular. Desatei-me, fiz-me clara e decidira encantar a noite. Permiti-me renascer às seis horas de um outro dia qualquer. Não sou Lua, mas sou nova, crescente e cheia de intensidade. Apenas deliberei por não minguar, nunca mais


 Eu ia escrever algo sobre esse meu texto, sobre o que eu quis dizer... Mas acho que o enredo já bastou. Sou uma apaixonada pela Lua e isso é evidente. Só tenho a acrescentar que mesmo falando sobre um suposto fim, o meu tom foi de alegria, quase fascínio. Espero que tenham notado e aprovado. Agradeço a quem não desiste de mim como pessoa e escritora. Beijos!   

sexta-feira, julho 22, 2011

Patrimônio.


  Na cabeça idosa de mente brilhante os cabelos ralos lutam contra o tempo, perseverantes em dividir espaço com a lucidez e sabedoria que cintilam o mesmo branco dos fios. A vida caminha casualmente para o fim desde o primeiro aplaudir dos cílios, porém quando o amor inicia o seu nascer, ele nunca se põe no anoitecer que é a morte.

  A senhora que todas as tardes enfeita o mesmo jardim com a sua presença, e exala a mesma alegria da sua juventude, é a minha amada esposa.  O verde do seu olhar e a vivacidade do seu sorriso esqueceram-se de envelhecer, embora as rugas façam questão de sorrir a velhice junto aos seus lábios rosados.

  Respiro cansado e, da antiga cadeira de balanço, colocada estrategicamente no local perfeito da varanda, permito-me admirar as flores que são regadas e quem as molha com zelo. E outro marejar umedece tímido não as plantas, mas o meu rosto – decorado pelo tempo com as mesmas marcas, vestígios da idade mental e física.

  As mãos desse pobre velho que registra cada momento ao fitá-los, as minhas mãos, tremem lânguidas enquanto equilibram nos dedos a caneta de tinta negra e o peso de quase noventa anos vividos. Na folha, que a canhestra segura, encontra-se o início do meu testamento. Seria esplêndido presentear quem viverá depois de mim com todas as minhas boas lembranças, aprendizados difíceis e lições que a vida me ensinara. Contudo, não é permitido nem possível guardar no mais seguro dos cofres toda a experiência adquirida. Somente o túmulo terá tal privilégio. Porém, o mesmo peito que guarda o ar nos pulmões com dificuldade é capaz de blindar-se contra o esquecimento. É capaz de fazê-la me amar após o fim. É o cofre onde os sentimentos se refugiam, quando a memória deteriorada os trai.

  Possivelmente, a herança da vida é morte e da falta a saudade. Mas, o que realmente me conforta é ter a convicção de que a herança do amor é a eternidade. E se o eterno insiste em findar primeiro a minha vida, contento-me por ser nesta tarde agradável enquanto o sol também se põe – a morrer. A única diferença é que amanhã ele fulgurará neste mesmo manto azul anil.

 Caminho calmo entre as flores até a minha querida, digo entre um apertado abraço:  “Além de todos os bens materiais, a minha herança para você é o amor capaz de fazê-la tranquila. Serena até mesmo sem a minha presença”. Ela sorri amarelo sem entender e me observa voltar para a mesma cadeira, após soltá-la do amplexo. E entre um leve balanço e outro, eu durmo para a eternidade – embora ela ainda não saiba.

Pauta para edição musical, Projeto Bloínques.

quinta-feira, julho 07, 2011

Sem.

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Após o sussurrado adeus,
Estarei sem carinhos seus;            
Congelarei em vão
Ao imergir na dor do não.

Como um rio sem nascente;
Tornar-me-ei sol sem meu poente.
Serei céu sem o alaranjar;
Desaguarei triste sem um mar.

Lamentarei o fim,
Mas guardar-te-ei em mim.

Aguardarei quem não virá,
Na espera que não findará;
Viverei os tons de inverno,
Vislumbrando um frio eterno.

Com os olhos a embaçar,
Cálidas lágrimas a derramar;
Ao ver partir o doce amor,
Eu serei morta e seca flor.

Guardar-te-ei em mim,
Mas lamentarei o fim.   
Pauta para o projeto bloínques - edição poemas.

Olá pessoal! Parece inacreditável, mas sim, eu estou de volta. Ao menos é o que parece. Estava super atarefada no colégio, estava saindo de casa às 6:00 horas (na verdade ainda estou) e voltando às 19:00 horas todos os dias, e o cansaço estava me matando. Torno a pedir desculpas por tanto tempo sem apreciá-los devidamente em seus blogs, embora os tenha acompanhado de longe. Mas, vida de eletrônica não é fácil. :/
No entanto, agradeço imensamente quem, ainda assim, tem paciência comigo e não me abandona. Grande abraço a todos! Amo cada palavra que vocês escrevem, e ler os vossos blogs é um presente. Prometo que tentarei diminuir os intervalos entre as postagens. Fiquem com Deus!                          

segunda-feira, abril 11, 2011

Mon'amour.



   O hospital fora a última morada da minha amada filha até que essa me deixasse aos seus dez anos de idade. Recordo-me com perfeição do dia no qual a minha pequena nascera, sendo ela o próprio sol que rompera a madrugada. O seu semblante diminuto reluzia a paz de um mundo inteiro e, enquanto a felicidade materializava-se e dormia tranquila nos meus braços maternos, a alegria fugia-me do peito e infiltrava-se em todo o ar.
  
   Os primeiros dentinhos dela vieram pontudos e, mais tarde, os seus passos altivos; Herdara, evidentemente, o ímpeto do pai. Mas, ainda que a coragem transbordasse do olhar doce e negro da nossa pequena, eu sempre dizia presunçosa: Eu quero ser para você um eterno escudo. Hoje lamento o fato da leucemia não ter escolhido a mim para amigar-se.
  
   Quando o aniversário de sete anos da nossa amada estava próximo foi quando os médicos presentearam-nos com a triste notícia. E após algumas torturantes seções de quimioterapia, sugeriram-nos que os pomposos cachos da nossa pequena fossem cortados, para evitar a tristeza de ver os fios rendendo-se a gravidade dolorosa e gradativamente, e assim foi feito.
   
   A marcha fúnebre do seu enterro ainda entoa os meus dias, um nítido contraste a efusividade das flores, as quais tingem os meus pensamentos e aromatizam a minha pele. O conjunto de tais lembranças traduz a minha tristeza constante e registra através de lágrimas quentes – que crestam a face e deixam os seus rastros diários – o vácuo que tomou-me por hábitat.

  As semanas voam austeras e destilam sobre a minha cabeça o cinza do outono, o qual arrasta pertinaz as correntes pesadas de não termos por perto a nossa menina. O telefone reproduz o seu eventual toque agudo, mas os meus dedos tremem e ignoram-no ao longo dos dias. Quando me permito sair da minha caverna de paredes de concreto, cores discretas e lareira acesa, – na esperança perpétua de aquecer-me por dentro – encaro com pudor a caixa de correio no jardim, por tê-la a abandonado igualmente. E a caixa metálica me sorri, em seu brilho taciturno, um altruísmo reprimido.
  
  Caminho, no entanto, desencorajada até a correspondência e obrigo-me a verificar quantas cartas disputam espaço dentro da caixinha desprezada por mim e esquecida, inconscientemente, pelo meu querido esposo. Entre os papéis amolgados uma letra infantil cintila contente em um papel cor de rosa. Com as mãos trêmulas, eu elevo ansiosa o pequeno envelope ao nariz – ao passo que o perfume floral da minha princesa me ocorre a memória. Em seguida o admiro e tateio cada dobradura enquanto observo a data de um mês e meio atrás. Leio, portanto, as singelas palavras: Eu quero ser pra vocês um anjinho, ainda que sem asas e auréola, como vocês são para mim. Eu quero ser também, mamãe e papai, somente motivo de alegria, esteja eu longe ou perto os amarei eternamente.

   Assim, as palavras da nossa filha selaram um adeus e reconfortaram parcialmente o meu coração; Enquanto as lágrimas demarcavam-me as têmporas. Eu ainda mantenho o cabelo curto, como da primeira vez em que o cortei em incentivo a minha pequena. E agora fico aqui, embasbacada diante de tanto amor que resplandece em papel tão pequeno. Aquiesço, portanto, e permito que a mão do meu querido repouse sobre a minha destra; Auxiliando-me, assim, nos passos que daremos rumo ao futuro.

 Pauta para o projeto bloínques,
19ª edição roteiro e 64ª edição musical.

 Fiz esse texto em homenagem a uma amiga que perdi ainda na infância por conta da leucemia, e algumas lágrimas não foram poupadas ao terminá-lo. Bem, peço mil perdão pelo tempo que fiquei sem nada postar. Como se já não fosse suficiente o pouco tempo que possuo para estar na internet o meu computador parou de funcionar e só voltou do conserto fim de semana passado. Enfim, espero que tenham gostado desse texto, e logo logo recuperarei tudo que perdi dos vossos blogs. Grande beijo. 

terça-feira, março 15, 2011

O abandono.

 

  As primeiras letras são desenhadas em caligrafia perfeita no papel branco, mas são tão ligeiras. As formosuras escorregam ardilosas pelas mãos cansadas, as que as criam. Derramando-se no chão, elas escapam satisfeitas pela porta entreaberta de madeira escura. O poeta, no entanto, deixa-se enfeitar o rosto de surpresa; Boquiaberto, o queixo caído denuncia sua angústia. As mãos, sempre vorazes, jazem trêmulas de agonia  lamentam o abandono. A lágrima pende em seu rosto envelhecido e desliza até a página, marcando-a. A marca úmida cintila solitária, já que o negro da escrita faz-se escasso. As palavras fugiram, pularam as janelas, adentram-se na lareira, não sussurram um adeus; Desprezaram o poeta e furtaram-lhe a vida, a alma. Agora, o silêncio da não-escrita soa tímido o seu pesar.


 Perdoem-me, não é plenamente o que eu queria; Mas por vezes parece mesmo que as palavras esquivam-se do meu abraço, no entanto, espero que essas singelas palavras o tenham agradado. Ontem, entre as ideias que tive, duas tomaram forma e envolveram-me por inteira. A primeira é simples: Eu adoro versinhos e acho que esses combinam magicamente com o dia de domingo; Adoraria que vocês escrevessem versinhos aos domingos e me enviassem. Não, não é um projeto e não haverá avaliação ou premiação; No entanto, eu adoraria mais essa troca mútua das palavras que deixaram-se ser escritas. Afinal, eu alimento-me (também) de palavras e rimas; Quem quiser, sinta-se mais que convidado. A segunda, outro dia eu conto. ^^ Grande beijo.                                 

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

(Re)viver.


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  As vozes diziam pausadamente com vigor e expectativa: Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três. – E nada. As tentativas totalizaram-se em quatro, no entanto, para que o fio da meada não escorregue ligeiro entre os meus dedos, dedicar-me-ei em tentar recordar o antes.


 As luzes noturnas enfeitam a cidade maravilhosa, de beleza natural tão cintilante quanto o tapete de estrelas artificiais que a veste. Porém, o cinza urbano e as luminosidades dos edifícios, casas noturnas e festas têm ofuscado uma luz esplendorosa; A qual é ostentada pela esfera prateada e longínqua, espargindo sobre nós gotas de prata, sejam essas de júbilo ou melancolia. 

 Eu constatara todo esse espetáculo ao deixar escapar-me uma olhadela em direção a janela aberta, sedutora. Enquanto, a noite me sorria ufana por ser a senhora de tamanha excelência. O vento tépido de verão convidou-me presunçoso a saborear a noite de perto. O encantador e taciturno convite elevou-se, posicionando-se bem ao centro da minha janela; Clareando com imponência a minha face e olhar, a lua deitou-se venturosa sobre o seu eterno trono.

 Já que eu não posso vestir-me de prata, substituo-a pelo meu vestido leve de flores simplórias. Decoro as orelhas com brincos tímidos, tão discretos quanto o meu risinho sereno ao flagrar-me tão contente. Solto os meus longos cachos sem pudor e, logo em seguida, tinjo os meus lábios com um batom cor de rosa; E o cheiro fraco de morango faz-me sentir ainda mais jovial. Aconchego os meus pés em sandálias baixas e, por fim, apanho uma bolsa com mãos ávidas suspendendo-a lateralmente, – contendo, nesta, apenas alguns trocados e a minha câmera fotográfica, juntamente a minha felicidade-reserva; Caso a que se abriga em mim seja furtada ao agitar da brisa, atraída e carregada pelo frescor litorâneo.

  Eu comprimi o dedo indicador nos interruptores, apagando as luzes das lâmpadas uma a uma. Permiti que somente a luz do luar banhasse o meu modesto apartamento antes de trancá-lo. Desci as escadas correndo, para desfrutar de cada momento em que o manto estrelado estampara o céu. Atravessei a porta do prédio saltitante, e gritei  desculpas de longe por ter esbarrado fortemente em uma senhora. Enfim nós, eu e a noite eu sibilei ao olhar para o alto. E após isso... Bem, após isso, eu não recordo de nada além da luz intensa e desconhecida que me atingiu veloz. Tão feroz.

  Abri meus olhos e espiei em volta. Onde eu estava? Na verdade, onde eu ainda estou? Nem mesmo posso arregalar os olhos de surpresa, pois, apesar de enxergar, não os possuo. No entanto, o azul que estampa as paredes do cômodo é tão suave quanto o do céu que eu vislumbrara em meus devaneios. Talvez, a morte seja distinta a tudo que pressupus um dia. Porém, agora que eu a vivo saberei. 

 A maca que decora o quarto é tão pálida quanto a face do corpo que a preenche  do meu ex-corpo. E ao considerar essa hipótese eu corro de pressa para ver-me de perto. Porém, não vejo as minhas pernas movimentarem-se tão efusivas quanto os meus pensamentos. Enfim, chego e aliso a face do meu corpo com as pontas dos dedos que não vejo; Acaricio igualmente a mão tão morta quanto o corpo que ocupa a cama, e despeço-me esperançosa.

 Entendo, no entanto, o porquê de tantas contagens; A cada três segundos uma nova expectativa de reavivar-me invadia os médios que nunca foram amigos meus – e nunca saberiam sobre a minha flor predileta, perfume ou paisagem. No entanto, os escassos segundos de vida tornam-se muitíssimos essenciais; Até mesmo para as pessoas que nunca me amaram, mas que hoje lutaram bravamente contra o tempo, contra a morte do meu corpo. Confesso que eu ainda não sei onde estou, mas o cantar ao fundo dos anjos me enche de esperanças – alertando-me do lugar esplêndido que eu acabara de adentrar.



Pauta para 55ª edição conto/história, Blq.

 Bem, eu acho que esse texto foi um dos mais ousados que escorregaram pelos meus dedos. Espero que tenham gostado, pois para mim foi um pequeno desafio transliterá-lo.
 Eu peço desculpas caso não possa comentar nos blogs que mais gosto assiduamente essa semana, é que provavelmente eu o faça com mais dedicação aos fins de semana. Com as aulas, devo reduzir o tempo no computador. Mas, saibam que não os abandonarei! Grande beijo, fiquem com Deus.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Metade de mim era palco, a outra metade se foi.




   Após acordar em uma manhã mormacenta de sábado, eu percebo-me inebriada ao passo que consumo o oxigênio e expiro o gás carbônico. O perfume exalado das flores recém-colidas caminha até a mim, adentra as minhas narinas – inflamando-as – e percorre ferozmente o meu sistema respiratório; Conduzindo-me a um agudo estado de êxtase. O cheiro doce das rosas, que nunca saberei a cor, golpeia efusivamente as paredes dos meus pulmões, como se planejasse expandir-se pelo resto do meu corpo. No entanto, recordo-me da última ocasião na qual as flores fizeram-se necessárias: O enterro do meu pai.

  Abanei o ar com as mãos, afastando a nuvem nostálgica e deliberei, portanto, seguir o aroma que tanto se apraz em me seduzir – anseio descobrir qual cômodo da minha casa possui a fonte de perfume tão agradável. Porém, antes de levantar-me da cama eu concentro-me em analisar. Consigo imaginar perfeitamente as flores sinuosas que se aconchegam no vazo de cerâmica, – posto em cima da mesa esférica da sala – por um motivo que eu desconheço.

  Ponho-me de pé sem alarde e com cautela para não tropeçar nos móveis, como de costume. Sigo com ímpeto em direção a porta do quarto, mas antes, dou uma singela olhadela no espelho atrás de mim, enquanto reflito sobre o pijama que me decora. Nós nunca nos veremos crescer, não é mesmo? – sussurro timidamente comigo mesma. Aquiesço, por fim, e caminho em direção a escada.

  A sola do meu pé encontra o primeiro degrau e, a cada novo passo, um júbilo percorre o meu corpo, por notar o quão independente eu sou. Os meus passos cessam, assim como a escada. Eu escuto murmúrios baixos trazidos pelo vento, os quais me denunciam que alguma visita conversa com a minha mãe no escritório, o que me causa um sobressalto. Mas, penso de antemão que deve ser algum familiar para congratular-me, devido a minha estréia no teatro do bairro hoje a noite.

  Vou de encontro a mesa, acaricio com a ponta dos dedos a dúzia de rosas e posteriormente afogo o meu rosto em sua maciez e perfume; E só despeço-me quando me convenço de que estou igualmente perfumada. Percebo automaticamente que o farfalhar das vozes, no cômodo a direita, transparece um nervosismo contido. Caminho apressada até a cozinha e apanho o primeiro copo que vejo, almejando imitar as séries e filmes nos quais as personagens põe-se a ouvir conversas atrás da porta.

  Elevo o copo de vidro até a orelha esquerda, na esperança de ampliar a minha percepção auditiva – que já é singularmente aguçada. Cerro ao máximo os olhos, como se isso também me favorecesse, e concentro-me. Enquanto, enumero as características que as vozes deixam escapar em tons audíveis: acidez, confidência, dor, desespero... Por fim, ouço o nome do meu amado namorado balbuciado entre soluços. E a frase seguinte desvencilhou-me de toda a felicidade e expectativa que em mim se abrigaram nesta manhã cinza. Eu consegui escutar apenas uma parte da conversa, mas fora o suficiente para sentir os golpes impiedosos em minha face, deixando-me moribunda.

  “Ele trazia apenas um buquê, uma aliança e um pedido. Estava a caminho daqui quando um carro o atropelou foi fatal. As flores eu pus sobre a mesa.”

  O copo dançou vivaz entre os meus dedos cálidos, enquanto eu permitia que as lágrimas igualmente caíssem – tão gélidas quanto o vidro. Eu pude ouvir o farfalhar do vento e logo em seguida o choque, tanto o meu quanto o do copo se espatifando no assoalho. Eu percebi o som fraco da porta ao ser aberta e os braços maternos e acolhedores me reerguerem ávidos.
  
  De pé, eu tateei a mesa, peguei a aliança e corri para o meu quarto enquanto a circunferência queimava em meu dedo. As horas se arrastaram dolorosamente e as lágrimas tornaram-se íntimas do meu rosto, mas eu adormeci. Eu não fui ao teatro e na manhã seguinte a dor tamborilava em meu peito. Decidi por ir somente ao velório, aonde algumas pessoas me cumprimentaram com pêsames, mas eu não consegui pronunciar palavra alguma.

  Desse dia em diante, os meus pés nunca mais tocaram o palco, embora, eu atue um pouco a cada dia. Atuo estar viva; Atuo ter me esquecido da conversa entrecortada que eu ouvira, há tempos, por trás da porta; Palavras que ecoam eternas em minha mente. Porém, todos os dias eu agradeço pelo amor que eu vivi e que ainda sinto. Agradeço aos céus por ter nascido cega – pois somente assim, eu não tive de guardar a lembrança do rosto do meu amado retorcido em dor, reluzindo a morte. Mas até hoje, a fragrância das flores permanece impregnada em meu nariz.

 Pauta para o projeto Bloínques, 54ª edição conto/história. 

 Foto: Matheus Meira, um querido amigo.


 Perdoem-me a extensão do texto. E devo confessar que não estou tão confiante quanto a minha participação nessa edição, mas enfim. No entanto, as palavras quiseram ser escritas desse modo, e assim eu o fiz. Grande beijo, e espero que tenham gostado. Agradeço verdadeiramente ao imenso carinho de todos e aos comentários sempre encantadores.                                                                           

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Sorrir não é pecar.


  A cor escura do lápis de olho demarcava vigorosamente o mistério transbordante do seu olhar. Os longos cílios que se encontravam e despediam-se a cada pestanejar seu, denunciavam-me a sua ansiedade ao pôr o primeiro pé no palco medíocre de madeira gasta – colorida de um marrom-avermelhado, castigado pelo tempo. Os seus segredos tão bem enterrados, e cintilantes nos seus olhos, aparentavam ansiar serem expostos e almejar saciar a minha voraz sede de desvendá-los; E desvendá-la, despertá-la, despenteá-la, despi-la...

 Embora negro feito a noite solitária, sem luar ou estrelas, eu consegui invadir-lhe o olhar sem que você o soubesse, e sem perder-me no pretume profundo que este ostentara. Porém, algo quebrara em mil partes a minha sólida concentração em admirar-te, pisoteando-a sem culpa; E fora o movimento suave dos seus lábios, vermelhos como o sangue e de vivacidade semelhante. Mas, enganei-me quanto a sua próxima expressão facial. Um belo e espaçoso sorriso não fulgurava o seu semblante, e nenhum beijo fora lançado em minha direção – como eu vislumbrara minuto atrás, ao vê-la surgir cingida por olhares cobiçosos.

 O intenso e inesperado contralto, que saltou de boca tão delicada, surpreendeu-me e ignorou o soprano que eu e os espectadores atentos – visitantes assíduos desse bar noturno – tanto aguardáramos. A sua voz não possuía a doçura do mel, porém, era tão peculiar e agradável quanto uma brisa fresca no verão, e de poder hipnótico imensurável.

 Desde a primeira noite em que eu pude contemplá-la, tornei-me frequentador tão assíduo quanto os outros. Eu passei a vir semanalmente a este bar antigo cujo único sol era você. No entanto, após incansáveis noites aqui, nunca pude agrupar em minhas lembranças a imagem de um sorriso seu. A sua beleza acentuou-se a cada dia, mas a sua felicidade não – beleza triste, a sua. Tu és dona de uma melancolia sedutora, a qual deixa escapar que quem você deseja encantar não a visita mais.

 O tempo correra e três semanas esvaíram-se desde a primeira vez que a fitei. Eu possuo alguns desenhos do seu rosto que eu mesmo fizera a caneta, durante as minhas visitas despercebidas, em guardanapos quaisquer. Você aflorou em mim a obsoleta vontade de desenhar. Porém, em minhas gravuras desajeitadas, feitas a mão, você sempre esboça um belo sorriso. Eu adoraria alertá-la que sorrir não é pecar, e que a sua face tornar-se-ia ainda mais esplêndida, caso você me permitisse pendurar e prolongar um riso alegre em seu semblante.

  No entanto, os boatos relatam que outro homem furtara a felicidade da minha recém-amada  ao abandoná-la sem dó neste mesmo palco, o qual a tem acolhido. E que ela, regida pela esperança, aguarda ansiosa a volta do seu sorriso e que, enquanto este não ocupa o seu devido lugar, ela passa o tempo cantando no bar, na espera desolada do que nunca chega. Porém, agora, o cruel ladrão da felicidade atravessa a porta impávido, ajoelha-se diante da minha recém-amada e a pede perdão por toda dor causada. E ela, interrompendo a canção, esboça um largo sorriso no mesmo instante, aquiescendo quanto as desculpas; Abraçando-o com imenso amor e complacência.

  Eu, desiludido, rabisco minha caligrafia elegante no primeiro guardanapo que vejo e peço para o garçom entregá-la, sem mencionar o remetente, enquanto dou-lhe as costas. Ela recebeu o bilhete e o leu em silêncio, entre abraços e beijos do homem que outrora a abandonara. As minhas letras dançaram as breves palavras: “Queria que você soubesse que adoro o jeito que você sorri. Sorriso da alma, embora raramente você o faça”. Mas, naquele momento, a felicidade dela era tamanha que o escrito nada seria além de um importuno. E, assim, eu parti silencioso como chegara. Doeu-me vê-la pela última vez, porém, era melhor assim. Ao menos, eu possuía a mais radiante lembrança: A do seu rosto iluminado, feito a estrela que ela fora em minhas noites.

Pauta para o projeto Bloínques, 54ª edição musical.


quarta-feira, janeiro 26, 2011

Sem dor, doravante.

"Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor

Prendia o choro e aguava o bom do amor"
   * Composição: Cazuza / Ezequiel Neves / Reinaldo Arias

  O vento, que ao soprar os meus ouvidos e acariciar o meu rosto cantou-me Cazuza*, lembrou-me de um antigo amigo, e assim, induziu-me a cumprimentar a saudade e a ir procurá-lo. Então, eu o fiz e fui de encontro aonde este se abrigava: no meu coração.
  
 Um átimo foi gasto enquanto eu golpeava – com a minha destra – leve e ansiosamente a frágil portinhola que fizera barreira entre o meu coração e eu. No entanto, a débil luz que emanava da singela fresta denunciou-me que a porta se encontrava entreaberta. Empurrei-a vagarosamente, enquanto, o meu incisivo olhar analisava avidamente o ambiente, pasmado com tamanha claridade e ordem.
  
 Eu acostumara-me, inconscientemente, a vir aqui e deparar-me com o pretume decorando as paredes compostas por músculos. No canto direito do cômodo pulsante, a penumbra era quem ocultara o meu querido amigo – um dos mais antigos sentimentos – a dor. Porém, atualmente, tudo é luz. E após vasculhar incansavelmente incontáveis pilhas de sentimentos e sensações eu não o encontrei. A frustração, então, assentou-se no canto obscuro de outrora – hoje, claríssimo – junto as inúmeras lembranças que contavam histórias, enquanto, outros bons sentimentos dançavam ao som de uma melodia qualquer. Permaneci, ainda, dentro do meu coração, boquiaberta com a completa ausência de dor, sofrimentos ou qualquer vestígio de amargura.
  
  Tornei, então, para o meu quarto – o de paredes feitas de concreto – e peguei deliberadamente a minha surrada mochila, companheira de tempos, e aconcheguei-a em minhas costas. Finalmente, retirei-me de casa tendo como destino um dos meus lugares prediletos. Eu corria desatinada pelo caminho familiar e amigável, embora a trilha escondida no término da rua, que se estendia diante da minha morada, estivesse encoberta a esta época do ano. O outono chegara efusivo, e as folhas secas caídas das árvores o anunciavam enquanto abraçavam o solo. Um belo tapete é aquele – eu pensei automaticamente ao cessar a corrida e pôr o primeiro pé na pontezinha de cimento sobre o delicado rio, o amado por mim.

  Apesar do rebuliço que se expandia dentro de mim, mantive-me aparentemente calma, encenando pertinaz para uma platéia inexistente, a qual poderia julgar-me louca a qualquer momento. No entanto, o entrar e sair do ar nos meus pulmões fazia-se rápido e denso em demasia, desmascarando-me plenamente. Firmei, então, as minhas mãos finas e cálidas sobre a proteção desbotada que me separava cruelmente do ribeiro. Percebi que nem mesmo a dor física fazia-se presente conforme as farpas amigavam-se dos meus dedos.

  Esse é o local da minha infância e início de juventude, eu sempre viera aqui nos momentos de raiva, infelicidade ou desânimo. Nesses dias, o meu olhar fixo para o riacho me proporcionava extremo alívio; Fitava-o com severidade e, por vezes, fingia um possível pulo suicida. Se o afogamento não furtasse a minha alma, certamente a queda desengonçada o faria. No entanto, antes que qualquer travessura ou insanidade fosse executada, os sentimentos ruins que me inundavam se sacrificavam por mim. Pulavam um a um no singelo rio sem pestanejar ou me dizer adeus e, assim, eu os observava submergir na água pouco agitada. Porém, o único sentimento cinza que eu obrigara a ficar comigo sempre fora a dor, preservando assim a vida das minhas futuras lágrimas.


  Hoje, aqui estou completamente aturdida. O meu olhar percorre ligeiro cada centímetro do córrego em busca da dor; e eu nada encontro. Horas se passam e eu permaneço estática, enquanto as sombras das árvores se estendem sobre o rio. Indago-me impaciente se a dor trouxera a si própria para cá através do mesmo caminho que eu percorrera. A resposta me vem do fundo da água possivelmente gélida: uma mão informe e um adeus sorridente. Curvei-me, então, para apanhar uma flor amarela que dormia junto ao meu pé. Aquiesci, por fim, acenando com a mão para minha antiga dor e lançando-lhe a belezinha perfumada após tocá-la com os lábios. Desse dia em diante, a dor viveu a sua própria vida e, longe de mim, me permitiu fazer o mesmo quando pôs um fim em nosso elo. 

Texto escrito dia  23 de Janeiro, 2O11.
Pauta para o projeto Bloínques, 53ª Edição Visual.

sábado, janeiro 15, 2011

A-dor-me-cer.

 
   O feitiço fora lançado sorrateiramente aos sete ventos, os quais sussurram uma melodia ininteligível ao atravessar a porta e transpassar minha vida. Cercara-me e envolvera-me coercitivamente, obrigando-me a acolhê-lo em meus braços frágeis. Enquanto, desastrosamente, a magia mostrou-me a beleza que dormia serena diante da minha presença. No entanto, era eu quem persistira em cerrar fortemente a janela da alma. Eu pude sentir os dedos cálidos e delgados me alcançarem, ao mesmo tempo em que – enlaçando-se rudemente aos meus cachos – arrastaram-me aos solavancos do acalanto do meu sono, e os meus olhos, despedindo-se da escuridão, negaram simpatia ao dia claro. Dia luz.

   O piano, intocavelmente belo e sedutor, transparecera não recordar-se de som ou toque algum. Os dedos que ali tocavam jazem trêmulos e desiludidos nas minhas mãos. As melodias perdidas morreram jovens e me abandonaram sem direito a canções fúnebres. No entanto, a superfície lisa e negra ainda me encanta e hipnotiza a cada novo reflexo reproduzido em sua quietude. Despertara junto a mim, todos os temores que outrora eu domara. Amanheceram lúcidas, junto ao Sol, as minhas tristezas. Convencera-me, a minha própria dor a desistir de domesticá-la?! Esta é vivaz e me induz a sentir saudade do sono que antes entorpecera a mim e a ela – pura morfina. Permaneço, então, acordada... E sem adormecer, eu me encontro a mercê da dor.


 Esse texto pulsou em mim durante uns três dias, então, ai esta ele – vitoriosamente insistente. Sobre outro assunto, eu estou bastante chateada com tudo o que está acontecendo aqui no Rio (Região Serrana). Eu moro na capital, Rio de Janeiro, e não fui afetada em nada, isso é verdade, mas sinto-me muito mal e medíocre por tantas vezes reclamar por coisas mínimas. Saber que nada do que eu faça reverterá toda a dor sempre me matou, e hoje me magoa ainda mais. Pretendo fazer um post sobre tudo isso depois. 
Grande beijo!                                                                                                                                 
Fonte da imagem: deviantart                                                                                                                                                                                                                            

segunda-feira, janeiro 10, 2011

(In)imaginável.

 
     Fictício amigo, 
   As minhas palavras, tão dóceis quanto o seu hipotético sorriso, se derramam suavemente diante de seu possível olhar para lhe acariciar os olhos, as quais sonham em envolvê-lo em um laço firme de sinceridade e arrastá-lo abruptamente para a companhia da sua velha amiga, hoje solitária.
  Eu nunca lhe ofereci um nome - e penso que igualmente não me apresentei - nem mesmo permiti que as palavras que se formavam em você saltassem de seus lábios e dançassem até os meus ouvidos. Acho que você tinha lábios. 
  Hoje, eu te vejo tão invisível como eu sempre determinara, mas devo admitir que ainda ouço o tamborilar de seus batimentos cardíacos, embora, orgulhosamente, eu não tenha confessado isso antes. 
  Desculpe-me, mas o meu olhar e carinho nem por um átimo lhe pertenceram, imitando a minha amizade. Porém, lembro-me com perfeição, do rumor suave que os seus pés cantavam ao tocar o chão; E da sua respiração que me acalentara em diversos momentos, espantando sem alarde os monstros que eu mesma criara no pretume da noite, em minha própria e interna escuridão. 
  Pena que eu gastara furtivamente toda a minha criatividade inventando fantasmas, dando-os vida e colorindo-os, e nunca valorizei a sua presença, nunca o abracei ou redecorei. Ou pior, talvez, eu a tenha desprezado. Criança cega, com um coração também cego - O meu perfil se enquadra sem questionamentos em tal definição.
   Talvez, eu ainda não consiga me convencer plenamente de que você existiu - ou vive. Pois a minha imaginação sempre fora fraca nesse gênero. Porém, ainda assim, peço-te perdão pela minha ausência nesses cinco mil oitocentos e quarenta dias, nos quais você se dedicou somente a mim.  
   Sugiro que não se assuste, pois ironicamente hoje sou eu a invisível. Espero, com esperança, que você receba esta carta e me permita ocupar um terço da sua imaginação, como eu nunca o permiti.
   Com carinho, dúvidas e dívidas.





Pauta para o projeto BloínquesEdição Cartas. 
Texto escrito dia O6 de Janeiro de 2O11.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

E todos por um.

   Ao longe, as raras árvores que ali estavam cochichavam e especulavam sobre o possível dilema do casal mais a frente. Porém, somente a estrada junto à vasta grama, de um verde vivaz e um silêncio comum, pôde presenciar e quase sentir o drama estampar o rosto do rapaz assim que ele percebera que Joana já o esperava. Enquanto isso, a mesma aflição fazia cintilar os olhos da bela moça, mesmo que ele ainda não pudesse ver este último.
  
   A amizade que a eles unia era de longa data, mas há tempos havia se desfeito de um modo frio e inexplicável. E isso rendera longas noites de insônia e pares de olheiras à jovem que não se conformara com o fim. Na verdade, eram três: Joana, Cássio e Arthur. Os três mosqueteiros, assim era como eles se autonomeavam na infância. Mas hoje, crescidos e distantes, há cinco anos, não cumprem o antigo imprescindível dilema de “um por todos, e todos por um”. As lágrimas de tristeza e os turbilhões de saudade e angústia vieram quando os dois irmãos, Cássio e Arthur, se mudaram do país, sem ao menos se despedir. Joana nunca se conformara ou compreendera o que os levou a tal atitude, e perdoá-los seria ainda mais complicado.

  – Você continua linda. – Cássio disse num tom sério, enquanto encarava fixamente a moça.

  – Certamente o assunto que o fez lembrar-se de mim não é a minha beleza. – Joana retrucou séria e fria enquanto virava-se para vê-lo.

  – Sim... Mas obrigado por ter vindo. – O tom de Cássio era cortante, e os olhos sempre fixos em Joana.

  – Era isso que pedira na carta. – Ela disse dando-o as costas, enquanto lutava contra as lágrimas.

  – Eu sei que eu e o Arthur agimos de uma forma muitíssimo ruim, viajamos sem nos despedir. E isso também nos magoou, mas é que nós descobrimos...

  – Descobriram que nós não somos mais crianças, e nem todos por um não é? – Ela o interrompeu e prosseguiu. – Sabe... Desculpe-me Cássio. Na verdade, foi horrível estar aqui sem vocês, sem notícias. Eu só precisava ouvir a voz de vocês. Eu amo tanto vocês dois, sempre os amei. E peço perdão por estar lhe tratando tão mal. – Ela não tinha coragem para virar-se.

  – Joana, querida! Sinto muito, mas o Arthur não está mais aqui. Ele se foi, e para sempre. Ele não queria que você soubesse que ele estava doente, por isso viajamos.

  Joana levou a mão à cabeça, estava zonza e o seu cérebro processava a triste informação. É claro que saber tão abruptamente da morte de seu querido amigo de infância a deixou em choque, paralisada. As únicas palavras que conseguiram escapar dos lábios foram:
  – Não, não! Por favor Cássio, vá embora! Chega de mentiras. Por que você está fazendo isso comigo!? – Ela disse isso aos prantos, porém de uma forma fraca e inconformada, literalmente em choque.

  – Perdoe-me Joana! Eu também sinto muitíssimo. Sei o quanto isso é difícil para todos nós. Mas irei respeitar a sua vontade... Vou deixá-la sozinha. Mas, se você quiser o meu carinho e consolo eu estarei por perto. Eu voltei a morar na antiga casa amarela. – Ele se despediu assim, deixando que algumas lágrimas insistentes tocassem o chão. Ele se fora em total silêncio e angústia.

  Joana chorou copiosamente durante alguns segundos, os mais longos e tristonhos da sua vida e decidiu-se, aturdida e confusa, ir atrás de Cássio. Ela o alcançou após curta corrida, e gritou afogada em lágrimas:

 – Cássio! Diga-me que é mentira, que tudo é apenas um pesadelo.

 – Não, Joaninha, infelizmente é real. – Ele a abraçou de um modo lindo, as gotículas gélidas também caiam de seus olhos. Sentaram-se na grama, a qual não demonstrava a vivacidade anterior, e permaneceram ali longos minutos. A conversa fora mantida pelas trocas de olhares e consolo. Ainda que a incomensurável e insuportável tristeza percorresse cada artéria de Joana, ela ainda possuía a amizade de Cássio.

  Pauta para o projeto Bloínques, 7ª Edição roteiro.

 Essa é a minha segunda participação no protejo Bloínques, e a primeira na edição roteiro. O texto ficou extenso, eu sei, mas espero que agrade.

 Mil beijos, queridos!