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domingo, janeiro 29, 2012

Adeus aos trajes e ultrajes do passado.


  O céu ornamenta-se com raras nuvens, inexoráveis ao meu desejo explícito de admirar o azul puramente anil. O mar faz-se de ondas efusivas, tão semelhantes as do meu agitado circular sanguíneo. Percebo a dificuldade em despir-se do passado, tanto a minha quanto a da natureza que traz consigo as marcas do ontem. A tempestade passara, devo admitir, mas as nuvens são insistentes e lutam para não se esvaírem. 

  As minhas únicas companhias são as lembranças de quando eu podia ter-te aqui perto de mim. Mas deliberara por livrar-me dessa gravata que me apertava o pescoço e sufocava-me sadicamente. Todo o figurino e formalidade são dispensáveis agora que a platéia já se fora, e deixara-me a fitar as cadeiras vazias. Laço desfeito e respiração confortável, logo ponho-me a conjeturar qual será o meu próximo passo após o fim do roteiro. Eu devo reviver o velho script ou encarar a aventura de dar pontos sem nós? Eis a questão. 

  Entre dúvidas tiro o paletó, pois creio que – independente de qual caminho eu decida seguir – não é saudável e aprazível trazer nos ombros os erros do ontem. No presente só aprovo ser aquecido por ternos feitos com linhas de ternura, e não de fios com peso de chumbo, compostos pelas minhas falhas de outrora. Removo igualmente os meus sapatos, afinal nunca intitulei justo comprimir os dedos, assim como considero um despeito imensurável permitir que um coração comprima-se de amargura ou rancor – provavelmente muitas pessoas precisam tirar os sapatos também da alma.

  Já sem as luvas nas mãos, posso sentir o sutil afago do futuro entre os meus dedos; enquanto me sinto impávido por ter despojado o passado e todos os seus trajes e ultrajes. Substituíra o paletó de arrependimentos por uma camiseta leve de recomeços e acertos. Afinal, protagonizar novamente erros antigos é como vendar-se e posteriormente lamentar a cegueira... Agora sigo sem pesar, sem rumo, sem erros, sem você – e sem muitas outras coisas que não me farão falta; não enquanto essa brisa marítima soprar-me nos ouvidos que as pegadas antigas e errôneas o mar apaga, e que o frescor da vida é renovável e infindo. 

Ao som de Titãs – Enquanto houver sol
A exemplo da Tay que sempre ouve belas músicas enquanto escreve.
 Senti-me tão leve e bem enquanto escrevia esse texto, espero que vocês tenham gostado. Fiquem com Deus, grande beijo.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Sobre raízes eternas e ternas.


  Em tempos de outrora fora o verde que tingira o clima até então primaveril, ao passo que o cenário vestia-se com a mesma vida das efusivas flores; e com o aroma doce e suave das rosas dissimuladamente espinhosas.

  Mas hoje, os raios solares golpeiam a superfície de terra batida como forma de anunciar frívola e oficialmente a chegada de uma nova estação climática; enquanto a minha face, desnutrida e ressecada, jaz beijando o mesmo solo. No entanto, eu não quero desperdiçar o meu ínfimo tempo descrevendo o meu estado. Esqueçamos logo os golpes cálidos e o beijo amargo – quero perder-me na lembrança de quando éramos apenas um. 

  Vislumbro-te do local onde repouso, enquanto a vida ainda circula pelas minhas nervuras e pigmenta fracamente o meu limbo, e apesar de não mais haver raízes palpáveis que atem-me a mesma terra que te nutre, eu poderia fincar-me aqui perpetuamente – ou findar-me – através do amor que sinto; pois não lobrigo alicerce mais resistente do que este sentimento.

  Época de glória, vigor e renascimento fora a que eu vivi quando ainda estava contigo... Até o dia que conheci o outono e posteriormente o inverno. Os ventos fortes e frios recusaram o meu pranto e separaram-nos, e depois das tormentas e tempestades eu contemplei de longe o seu reflorescer na primavera seguinte; enquanto degustava o meu último nutriente – a solidão –, pois sinto que a morte implacável apresentar-se-á a mim neste verão. Mas não exijo que chores pelas folhas derramadas, porque há um pouco de mim em você inteira. Sempre houve e para sempre haverá; eu nasci de ti e tive que ceder o meu lugar para a outra geração.

  Talvez mãos macias e complacentes, percebendo o quanto eu agonizo e admiro-te de longe, tentem unir-nos de volta. Mas em breve chega o outono novamente, e a ausência de um pecíolo preso a uma bainha – e esta ao seu caule – fará com que eu vá embora, e em paz, por saber que a sua vida é também a minha.  

 Bem, estou feliz com esse texto apesar de achar que ele não ficou como eu pretendia. Nunca pensei que relataria o amor de uma folha caída pela sua árvore, mas aí está. Espero que vocês tenham gostado desse amor e dessa vida que se renova a cada folha que nasce; lembrem-se que sempre haverá um pouco das folhas que caem em todas as árvores que permanecem inteiras e robustas. Grande beijo, fiquem com Deus.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Reescritos.


  Querido escritor,

 Durante um longo tempo eu cambaleei desapontada pela mente dos que me aprisionavam com afinco; formavam versos e compunham, porém não os registravam mais. E eu perdida em meio aos meus soluços, e entre os neurônios pulsantes de cérebros desconhecidos, lamentava aturdida o silêncio dos seus dedos que insistiam em não me transliterar. Saudade é o que eu sinto quando me recordo das vezes em que nos encontramos, e reencontramos em linhas sem fim.

  Em tempos de outrora, eu dançara solta e correra contente por páginas amareladas, vestida da mais bela caligrafia. Os reencontros entre a escrita e a folha, as ideias e os dedos – seus dedos –, criavam tantas entrelinhas. Imagine, pois, a timidez que tomar-me-á no nosso próximo e improvável reencontro. Anseio fitar e poder descrever detalhadamente as impressões digitais da sua destra, a firmeza do seu traço, o branco do papel e o sabor de ser novamente escrita. A sua eterna escrita.

A ausência foi enorme, eu sei, assim como também sei que já gastara todos os meus pedidos de desculpas possíveis. Enfim, tenho a dizer que tentarei vir aqui mais vezes e com textos melhores. Grande beijo, fiquem com Deus. E obrigado a quem não desiste de mim.

terça-feira, novembro 08, 2011

Findá-lo-ei.

  
 Hoje é o último dia do mês. O sol abrasante ainda lambe os meus cabelos fio a fio, clareando-os ainda mais, vestindo-os de ouro. Eu posso notar com extrema facilidade o peso nos passos desse dia. Cambaleante é o andar de quem se recusa a caminhar... E infeliz é a vida de quem se recusa a viver. O astro rei, ator majestoso, aquece com seus raios amarelos o dia quase eterno, exibindo ufano um falso riso. Demora-se no céu, enfeita-o com louvor, como se sadicamente prolongasse a rotação da terra e estorvasse a noite – dizendo não ao fim, contrariando o mês que existiu por obrigação. 

 O tapete está adiante, uma estrada longa composta por segundos, minutos e horas. Mas o Outubro teima com afinco e insiste em descansar em cima do muro. Não se vai, mas também não permanece – morre aos poucos, agoniza. Ainda que o futuro me chame, sinto o cálido toque em minhas mãos procedente de um mês suado, calado, exigente, quase passado... Tão presunçoso, recusara ser presente, almejara não viver e perecera ainda mais; e os trinta dias duraram como se fossem noventa. 

  Imitando a ínfima linha do horizonte, a que divide o céu e o mar, a terra e o ar, o muro obsta o início do fim; o término de um dia e o início de outro. E enquanto o manto azul marinho estende-se, salpicado de brilhantes, o mês tão sofrido comemora o seu findar como se Novembro fosse o seu renascer límpido e invejável; o único digno de preencher setecentos e vinte horas de um calendário tão corrido. Assim parte o Outubro, o que não solicitou vida destilara a sua, gotejando os segundos até finalizar-se.

  Bem, faltam-me palavras para vos pedir desculpas, porém pretendo recuperar todo o tempo perdido no qual fiquei distante, presenteá-los com bons textos e igualmente vos visitar com mais freqüência. Fiquem com Deus, e muito obrigada por serem pacientes e não me abandonarem. Em relação a esse texto, gostei dele embora não tenha ficado como eu almejava. Enfim, grande beijo a todos.                                                                                                                 

sexta-feira, julho 22, 2011

Patrimônio.


  Na cabeça idosa de mente brilhante os cabelos ralos lutam contra o tempo, perseverantes em dividir espaço com a lucidez e sabedoria que cintilam o mesmo branco dos fios. A vida caminha casualmente para o fim desde o primeiro aplaudir dos cílios, porém quando o amor inicia o seu nascer, ele nunca se põe no anoitecer que é a morte.

  A senhora que todas as tardes enfeita o mesmo jardim com a sua presença, e exala a mesma alegria da sua juventude, é a minha amada esposa.  O verde do seu olhar e a vivacidade do seu sorriso esqueceram-se de envelhecer, embora as rugas façam questão de sorrir a velhice junto aos seus lábios rosados.

  Respiro cansado e, da antiga cadeira de balanço, colocada estrategicamente no local perfeito da varanda, permito-me admirar as flores que são regadas e quem as molha com zelo. E outro marejar umedece tímido não as plantas, mas o meu rosto – decorado pelo tempo com as mesmas marcas, vestígios da idade mental e física.

  As mãos desse pobre velho que registra cada momento ao fitá-los, as minhas mãos, tremem lânguidas enquanto equilibram nos dedos a caneta de tinta negra e o peso de quase noventa anos vividos. Na folha, que a canhestra segura, encontra-se o início do meu testamento. Seria esplêndido presentear quem viverá depois de mim com todas as minhas boas lembranças, aprendizados difíceis e lições que a vida me ensinara. Contudo, não é permitido nem possível guardar no mais seguro dos cofres toda a experiência adquirida. Somente o túmulo terá tal privilégio. Porém, o mesmo peito que guarda o ar nos pulmões com dificuldade é capaz de blindar-se contra o esquecimento. É capaz de fazê-la me amar após o fim. É o cofre onde os sentimentos se refugiam, quando a memória deteriorada os trai.

  Possivelmente, a herança da vida é morte e da falta a saudade. Mas, o que realmente me conforta é ter a convicção de que a herança do amor é a eternidade. E se o eterno insiste em findar primeiro a minha vida, contento-me por ser nesta tarde agradável enquanto o sol também se põe – a morrer. A única diferença é que amanhã ele fulgurará neste mesmo manto azul anil.

 Caminho calmo entre as flores até a minha querida, digo entre um apertado abraço:  “Além de todos os bens materiais, a minha herança para você é o amor capaz de fazê-la tranquila. Serena até mesmo sem a minha presença”. Ela sorri amarelo sem entender e me observa voltar para a mesma cadeira, após soltá-la do amplexo. E entre um leve balanço e outro, eu durmo para a eternidade – embora ela ainda não saiba.

Pauta para edição musical, Projeto Bloínques.

segunda-feira, abril 11, 2011

Mon'amour.



   O hospital fora a última morada da minha amada filha até que essa me deixasse aos seus dez anos de idade. Recordo-me com perfeição do dia no qual a minha pequena nascera, sendo ela o próprio sol que rompera a madrugada. O seu semblante diminuto reluzia a paz de um mundo inteiro e, enquanto a felicidade materializava-se e dormia tranquila nos meus braços maternos, a alegria fugia-me do peito e infiltrava-se em todo o ar.
  
   Os primeiros dentinhos dela vieram pontudos e, mais tarde, os seus passos altivos; Herdara, evidentemente, o ímpeto do pai. Mas, ainda que a coragem transbordasse do olhar doce e negro da nossa pequena, eu sempre dizia presunçosa: Eu quero ser para você um eterno escudo. Hoje lamento o fato da leucemia não ter escolhido a mim para amigar-se.
  
   Quando o aniversário de sete anos da nossa amada estava próximo foi quando os médicos presentearam-nos com a triste notícia. E após algumas torturantes seções de quimioterapia, sugeriram-nos que os pomposos cachos da nossa pequena fossem cortados, para evitar a tristeza de ver os fios rendendo-se a gravidade dolorosa e gradativamente, e assim foi feito.
   
   A marcha fúnebre do seu enterro ainda entoa os meus dias, um nítido contraste a efusividade das flores, as quais tingem os meus pensamentos e aromatizam a minha pele. O conjunto de tais lembranças traduz a minha tristeza constante e registra através de lágrimas quentes – que crestam a face e deixam os seus rastros diários – o vácuo que tomou-me por hábitat.

  As semanas voam austeras e destilam sobre a minha cabeça o cinza do outono, o qual arrasta pertinaz as correntes pesadas de não termos por perto a nossa menina. O telefone reproduz o seu eventual toque agudo, mas os meus dedos tremem e ignoram-no ao longo dos dias. Quando me permito sair da minha caverna de paredes de concreto, cores discretas e lareira acesa, – na esperança perpétua de aquecer-me por dentro – encaro com pudor a caixa de correio no jardim, por tê-la a abandonado igualmente. E a caixa metálica me sorri, em seu brilho taciturno, um altruísmo reprimido.
  
  Caminho, no entanto, desencorajada até a correspondência e obrigo-me a verificar quantas cartas disputam espaço dentro da caixinha desprezada por mim e esquecida, inconscientemente, pelo meu querido esposo. Entre os papéis amolgados uma letra infantil cintila contente em um papel cor de rosa. Com as mãos trêmulas, eu elevo ansiosa o pequeno envelope ao nariz – ao passo que o perfume floral da minha princesa me ocorre a memória. Em seguida o admiro e tateio cada dobradura enquanto observo a data de um mês e meio atrás. Leio, portanto, as singelas palavras: Eu quero ser pra vocês um anjinho, ainda que sem asas e auréola, como vocês são para mim. Eu quero ser também, mamãe e papai, somente motivo de alegria, esteja eu longe ou perto os amarei eternamente.

   Assim, as palavras da nossa filha selaram um adeus e reconfortaram parcialmente o meu coração; Enquanto as lágrimas demarcavam-me as têmporas. Eu ainda mantenho o cabelo curto, como da primeira vez em que o cortei em incentivo a minha pequena. E agora fico aqui, embasbacada diante de tanto amor que resplandece em papel tão pequeno. Aquiesço, portanto, e permito que a mão do meu querido repouse sobre a minha destra; Auxiliando-me, assim, nos passos que daremos rumo ao futuro.

 Pauta para o projeto bloínques,
19ª edição roteiro e 64ª edição musical.

 Fiz esse texto em homenagem a uma amiga que perdi ainda na infância por conta da leucemia, e algumas lágrimas não foram poupadas ao terminá-lo. Bem, peço mil perdão pelo tempo que fiquei sem nada postar. Como se já não fosse suficiente o pouco tempo que possuo para estar na internet o meu computador parou de funcionar e só voltou do conserto fim de semana passado. Enfim, espero que tenham gostado desse texto, e logo logo recuperarei tudo que perdi dos vossos blogs. Grande beijo. 

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Um passo de cada vez.


  Embora, a cor cinza seja quem tingira o céu nessa manhã de outono, o azul metálico da bicicleta cintila contente em resposta aos raros raios de sol que o beija. A grama, baixa e viçosa, se estende deleitosa; Derramando-se ao lado do lago e da singela estrada que o contorna – enquanto, ambos especulam sobre a única personagem que decora cenário tão belo, e torna-se um elemento tão essencial, no espetáculo matinal, quanto a própria natureza.


  A moça enfeita a bicicleta e, aprumada sobre as rendas e babados da sua roupa, põe-se a contornar o lago – tão silenciosa e quieta quanto o movimento da água escura. O vento sereno das seis – vestígio da madrugada, beijo de adeus – agita alguns fios do seu cabelo, assim como, os seus pensamentos.

  Atrás de si, ela vê o passado obstinado em sua perseguição. Ele acena sarcástico e por vezes a convida a fazer uma pausa, cessar as pedaladas e correr para abraçá-lo; Mas ela se nega, pois a fadiga de se enlaçar as lembranças, somente recordar e não viver, é notória em sua densa respiração. A jovem encara o futuro e o almeja, enquanto, organiza cautelosamente em sua cestinha todas as suas expectativas e sonhos.

  As duas rodas giram e giram ininterruptas, ao passo que o dia executa o seu amanhecer, e a lenta rotação conduz os espectadores ao ébrio. A essa hora todos dormem, porém, o planeta Terra parece bailar no mesmo compasso da rotação das rodas feitas de borracha. Borracha gasta e velha, que atua perfeitamente na ineficácia do freio – ela sussurra para si. E ao perceber o quanto o seu coração tamborila lento, balbuciando os batimentos cardíacos, se assemelhando as rodas antigas, um sorrisinho veste os seus lábios. 

  É a quinta vez que ela passara pelo mesmo lugar no parque; Contornando-o pela última vez, ela despede-se da árvore, que a observa em silêncio, e decide tomar um rumo afinal. Sobre as duas rodas ela desvia pela primeira vez o olhar do lago, do cimento escuro e da grama rasteira. Assim, também, ela se desviou da sua rota contínua e perpétua; Pois a resposta para as suas perguntas sobre o passado, presente ou futuro não estará, obviamente, em andar em círculos. E, ainda que surrado, o seu coração ainda é capaz de amar.
  
   A menina, então, abandona a bicicleta em um canto qualquer do parque; E guarda os seus sonhos e expectativas no peito, para que o novo oxigênio que a invade possa mantê-los sempre vivos, respirando. Ela avista a felicidade que a espera ao longe e decide por ir caminhado, sem pressa, livre de tantas ansiedades ou temores. Um passo tranquilo após o outro, é assim que a jovem vai de encontro ao que a torna feliz.

Pauta para 55ª edição visual, Blq.


 Sinto-me um tanto aliviada por escrever um texto meigo, eu diria, após tantos outros relacionados a decepções amorosas ou tristezas. Mas, lembrem-se, nem sempre eu transcrevo o que sinto. Grande beijo a todos, de coração!                                                                         

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Sou assim: Tão poeira, tão pintura, tão rupestre.

 

  O sol escaldante cobre os meus cachos fio a fio, vestindo-os de ouro. O suor salgado passeia sobre as minhas têmporas, embora, a imobilidade não me abandone. Ainda inerte, eu posso sentir o peso intenso dos seus passos – como se esses pertencessem aos meus pés cansados. Você é o primeiro dia do mês e eu estremeço ao ver a sua constante aproximação. 

 A camada de ar mormacenta e densa que o decora, mais carbono do que ozônio, me sorri sarcasticamente, como se eu fosse a sua próxima vítima. Olho-me ansiosa e o alívio me invade ao ver que ainda não estou vestida de alvo. Porém, viro o rosto retorcido em uma careta e, pondo a mão em meu peito, eu executo um cálculo hipotético almejando saber, sem sucesso, quanto oxigênio ainda me resta. Arquejo ainda mais ao obrigar-me a admitir o quão impossível é anular a chegada de tal dia.


   A conversa que eu mantivera com o passado até outrora fazia-se agradável em demasia, fortalecendo com vigor a nossa antiga aliança; Algemando-me a ele majestosamente. E agora, ao notar os escassos passos que me separam do futuro, desejo instantânea e inconscientemente alongar ao máximo a curta distância que me protege. Planejo aturdida uma fuga insensata, enquanto esquivo-me competentemente do novo que me persegue como quem anseia pela sorte e a busca cegamente.
  
  Confino-me, portanto, na antiga caverna que em mim escondo, com a grotesca pretensão de tardar a visita do futuro que virá a galope. Encolho-me, então, com o empenho de ofuscar-me na quina mais obsoleta das minhas memórias. Cubro-me com o lençol da desusada felicidade e abraço-me ao inesquecível pretérito.

 Observo com cautela as pinturas rupestres que se derramam sobre as paredes da gruta – sobre mim. Tão mortas quanto a minha vontade de seguir em frente, de amar o novo. Não, eu não quero experimentar ou reinventar; Quero apenas cingir com os meus braços lânguidos o álbum de fotografia antigo, o qual fulgura a alegria que se esvaiu entre os meus dedos. Eu desejo o cheiro de velho, isso sim, e a poeira que tanto me rouba risos e espirros – o que garante que ainda vivo e que o meu organismo funciona perfeitamente.

 Eu confesso, portanto, a minha imensa vontade de redesenhar o passado nessas paredes maltrapilhas, e acreditar na magia pré-histórica. E aguardar que todos os bons sentimentos retratados no tabique encham-se de vida, e dancem até a mim magistralmente. Quem sabe, assim, eu não consiga desprender-me do pretérito e permitir que somente as pinturas ocupem esses espaços tão rupestres.

Imagem: Weit

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Sem dor, doravante.

"Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor

Prendia o choro e aguava o bom do amor"
   * Composição: Cazuza / Ezequiel Neves / Reinaldo Arias

  O vento, que ao soprar os meus ouvidos e acariciar o meu rosto cantou-me Cazuza*, lembrou-me de um antigo amigo, e assim, induziu-me a cumprimentar a saudade e a ir procurá-lo. Então, eu o fiz e fui de encontro aonde este se abrigava: no meu coração.
  
 Um átimo foi gasto enquanto eu golpeava – com a minha destra – leve e ansiosamente a frágil portinhola que fizera barreira entre o meu coração e eu. No entanto, a débil luz que emanava da singela fresta denunciou-me que a porta se encontrava entreaberta. Empurrei-a vagarosamente, enquanto, o meu incisivo olhar analisava avidamente o ambiente, pasmado com tamanha claridade e ordem.
  
 Eu acostumara-me, inconscientemente, a vir aqui e deparar-me com o pretume decorando as paredes compostas por músculos. No canto direito do cômodo pulsante, a penumbra era quem ocultara o meu querido amigo – um dos mais antigos sentimentos – a dor. Porém, atualmente, tudo é luz. E após vasculhar incansavelmente incontáveis pilhas de sentimentos e sensações eu não o encontrei. A frustração, então, assentou-se no canto obscuro de outrora – hoje, claríssimo – junto as inúmeras lembranças que contavam histórias, enquanto, outros bons sentimentos dançavam ao som de uma melodia qualquer. Permaneci, ainda, dentro do meu coração, boquiaberta com a completa ausência de dor, sofrimentos ou qualquer vestígio de amargura.
  
  Tornei, então, para o meu quarto – o de paredes feitas de concreto – e peguei deliberadamente a minha surrada mochila, companheira de tempos, e aconcheguei-a em minhas costas. Finalmente, retirei-me de casa tendo como destino um dos meus lugares prediletos. Eu corria desatinada pelo caminho familiar e amigável, embora a trilha escondida no término da rua, que se estendia diante da minha morada, estivesse encoberta a esta época do ano. O outono chegara efusivo, e as folhas secas caídas das árvores o anunciavam enquanto abraçavam o solo. Um belo tapete é aquele – eu pensei automaticamente ao cessar a corrida e pôr o primeiro pé na pontezinha de cimento sobre o delicado rio, o amado por mim.

  Apesar do rebuliço que se expandia dentro de mim, mantive-me aparentemente calma, encenando pertinaz para uma platéia inexistente, a qual poderia julgar-me louca a qualquer momento. No entanto, o entrar e sair do ar nos meus pulmões fazia-se rápido e denso em demasia, desmascarando-me plenamente. Firmei, então, as minhas mãos finas e cálidas sobre a proteção desbotada que me separava cruelmente do ribeiro. Percebi que nem mesmo a dor física fazia-se presente conforme as farpas amigavam-se dos meus dedos.

  Esse é o local da minha infância e início de juventude, eu sempre viera aqui nos momentos de raiva, infelicidade ou desânimo. Nesses dias, o meu olhar fixo para o riacho me proporcionava extremo alívio; Fitava-o com severidade e, por vezes, fingia um possível pulo suicida. Se o afogamento não furtasse a minha alma, certamente a queda desengonçada o faria. No entanto, antes que qualquer travessura ou insanidade fosse executada, os sentimentos ruins que me inundavam se sacrificavam por mim. Pulavam um a um no singelo rio sem pestanejar ou me dizer adeus e, assim, eu os observava submergir na água pouco agitada. Porém, o único sentimento cinza que eu obrigara a ficar comigo sempre fora a dor, preservando assim a vida das minhas futuras lágrimas.


  Hoje, aqui estou completamente aturdida. O meu olhar percorre ligeiro cada centímetro do córrego em busca da dor; e eu nada encontro. Horas se passam e eu permaneço estática, enquanto as sombras das árvores se estendem sobre o rio. Indago-me impaciente se a dor trouxera a si própria para cá através do mesmo caminho que eu percorrera. A resposta me vem do fundo da água possivelmente gélida: uma mão informe e um adeus sorridente. Curvei-me, então, para apanhar uma flor amarela que dormia junto ao meu pé. Aquiesci, por fim, acenando com a mão para minha antiga dor e lançando-lhe a belezinha perfumada após tocá-la com os lábios. Desse dia em diante, a dor viveu a sua própria vida e, longe de mim, me permitiu fazer o mesmo quando pôs um fim em nosso elo. 

Texto escrito dia  23 de Janeiro, 2O11.
Pauta para o projeto Bloínques, 53ª Edição Visual.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Sem sóis, a sós.

  
   O gigante, então, desfalece em si próprio e toda a sua agonia ecoa nítida e retumbante, intensificando-se a cada novo tormento e principiantes lamúrias. O céu soluça com o semblante desbotado a dor que acumulou silencioso. O sorriso amarelo e corriqueiro, quente feito o fogo, fora encoberto pelo anuviamento cinza-claro, nada fulgurante quando posto em paralelo com os relâmpagos.  
   O céu grita choroso toda a sua angústia como criança desamparada, recentemente órfã. Não há braços para envolvê-lo enquanto a sua melancolia é exposta – exposição de tristezas sem espectadores, ou viva alma, para lançá-la olhares de admiração.
   Outrora, em dias em que o sol beijava o imenso azul – nos quais as folhas farfalhavam calmas ao vento – a brisa era melodia e o céu um grande espetáculo, muitos lhe concediam amizade, enquanto, as suas faces ostentavam sorrisos iluminados. Hoje, todo ser humano, de sentimentos humanos ou não, evadiu-se da sua presença, indo ao encontro de seu aconchegante e quente lar. Ao passo que o céu urge e arqueja entre trovões.
  Os rostos, então, evaporam-se como água ao atingir cem graus Celsius. Induzindo-me a pressupor que até mesmo a felicidade e a contemplação tenham o seu ponto de ebulição. E, assim, vejo a ironia crescente e incisiva: Enquanto o calor abandona-o e a chuva gélida, quase feroz, derrama-se abraçando a face terrestre – confundindo e fundindo-se as lágrimas do céu – é nesse momento, de não-calor, que os sorrisos abandonam os lábios e transformam-se em vapor.
  Indago-me aturdida e confusa se fora a gratidão ou o amor que, audacioso, ousara a me conduzir deliberadamente para clímax da tempestade. Ainda que as minhas palavras de consolo caiam por terra, rendendo-se de joelhos ao tentar transpassar a atmosfera, manter-me-ei aqui. Embora, o vento sopre risonhamente contra, como um parceiro que insiste em bailar no amplo salão movendo-se em direção contrária. Ainda assim, boquiaberta, eu observo com deleite o seu choro lavar a minha face. É somente fase, e rogo para que não a temam, mas sim compreendam e respeitem a sua dor  ou desamor.

  Comecei esse texto anteontem quando, antes do dia dizer adeus, começou uma chuva muito forte aqui, fazendo com que a rede elétrica parasse de funcionar - justo na hora em que vazia um selo. Enfim, sem energia, e após admirar da varanda de casa a chuva mais bela que já vi, corri feito uma louca até o meu quarto, agradecendo ainda não ser noite, peguei um folha qualquer e uma caneta e comecei a escrever, enquanto o barulho dos trovões me dava pequenos sustos. Enfim, espero que gostem e agradeço aos comentários que sempre me alegram muito. Ah, viva a eletricidade ^^  Grande beijo!                    

sábado, janeiro 15, 2011

A-dor-me-cer.

 
   O feitiço fora lançado sorrateiramente aos sete ventos, os quais sussurram uma melodia ininteligível ao atravessar a porta e transpassar minha vida. Cercara-me e envolvera-me coercitivamente, obrigando-me a acolhê-lo em meus braços frágeis. Enquanto, desastrosamente, a magia mostrou-me a beleza que dormia serena diante da minha presença. No entanto, era eu quem persistira em cerrar fortemente a janela da alma. Eu pude sentir os dedos cálidos e delgados me alcançarem, ao mesmo tempo em que – enlaçando-se rudemente aos meus cachos – arrastaram-me aos solavancos do acalanto do meu sono, e os meus olhos, despedindo-se da escuridão, negaram simpatia ao dia claro. Dia luz.

   O piano, intocavelmente belo e sedutor, transparecera não recordar-se de som ou toque algum. Os dedos que ali tocavam jazem trêmulos e desiludidos nas minhas mãos. As melodias perdidas morreram jovens e me abandonaram sem direito a canções fúnebres. No entanto, a superfície lisa e negra ainda me encanta e hipnotiza a cada novo reflexo reproduzido em sua quietude. Despertara junto a mim, todos os temores que outrora eu domara. Amanheceram lúcidas, junto ao Sol, as minhas tristezas. Convencera-me, a minha própria dor a desistir de domesticá-la?! Esta é vivaz e me induz a sentir saudade do sono que antes entorpecera a mim e a ela – pura morfina. Permaneço, então, acordada... E sem adormecer, eu me encontro a mercê da dor.


 Esse texto pulsou em mim durante uns três dias, então, ai esta ele – vitoriosamente insistente. Sobre outro assunto, eu estou bastante chateada com tudo o que está acontecendo aqui no Rio (Região Serrana). Eu moro na capital, Rio de Janeiro, e não fui afetada em nada, isso é verdade, mas sinto-me muito mal e medíocre por tantas vezes reclamar por coisas mínimas. Saber que nada do que eu faça reverterá toda a dor sempre me matou, e hoje me magoa ainda mais. Pretendo fazer um post sobre tudo isso depois. 
Grande beijo!                                                                                                                                 
Fonte da imagem: deviantart                                                                                                                                                                                                                            

segunda-feira, janeiro 10, 2011

(In)imaginável.

 
     Fictício amigo, 
   As minhas palavras, tão dóceis quanto o seu hipotético sorriso, se derramam suavemente diante de seu possível olhar para lhe acariciar os olhos, as quais sonham em envolvê-lo em um laço firme de sinceridade e arrastá-lo abruptamente para a companhia da sua velha amiga, hoje solitária.
  Eu nunca lhe ofereci um nome - e penso que igualmente não me apresentei - nem mesmo permiti que as palavras que se formavam em você saltassem de seus lábios e dançassem até os meus ouvidos. Acho que você tinha lábios. 
  Hoje, eu te vejo tão invisível como eu sempre determinara, mas devo admitir que ainda ouço o tamborilar de seus batimentos cardíacos, embora, orgulhosamente, eu não tenha confessado isso antes. 
  Desculpe-me, mas o meu olhar e carinho nem por um átimo lhe pertenceram, imitando a minha amizade. Porém, lembro-me com perfeição, do rumor suave que os seus pés cantavam ao tocar o chão; E da sua respiração que me acalentara em diversos momentos, espantando sem alarde os monstros que eu mesma criara no pretume da noite, em minha própria e interna escuridão. 
  Pena que eu gastara furtivamente toda a minha criatividade inventando fantasmas, dando-os vida e colorindo-os, e nunca valorizei a sua presença, nunca o abracei ou redecorei. Ou pior, talvez, eu a tenha desprezado. Criança cega, com um coração também cego - O meu perfil se enquadra sem questionamentos em tal definição.
   Talvez, eu ainda não consiga me convencer plenamente de que você existiu - ou vive. Pois a minha imaginação sempre fora fraca nesse gênero. Porém, ainda assim, peço-te perdão pela minha ausência nesses cinco mil oitocentos e quarenta dias, nos quais você se dedicou somente a mim.  
   Sugiro que não se assuste, pois ironicamente hoje sou eu a invisível. Espero, com esperança, que você receba esta carta e me permita ocupar um terço da sua imaginação, como eu nunca o permiti.
   Com carinho, dúvidas e dívidas.





Pauta para o projeto BloínquesEdição Cartas. 
Texto escrito dia O6 de Janeiro de 2O11.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Esconderijo !


   Passos regulares amassam as folhas que, castigadas pelo tempo, caíram das árvores imitando as do outono passado. Um após o outro, os passos se completam e acompanham ritmadamente o “entra e sai” do ar nos meus pulmões. A caminhada, então, torna-se uma corrida, enquanto eu me transformo em vulto. Todo esse êxtase se expande pelas minhas artérias após eu avistar a minha perpétua e diária barreira dos últimos trezentos e sessenta e cinco dias. Amarela e estática, como sempre, ela me convida a atravessá-la e quase sorri. Do outro lado do muro é onde eu me refugio, o que torna todo esforço e confronto extremamente fácil ou válido. Basta que eu pule! E então, sem bloqueios posso me submergir em paz e liberdade, calmaria.

  Sentar-me-ei no piso frio, um tanto sujo, e observarei a felicidade presente em cada gota d’água que me acolhe. Recordar-me-ei de todas as vezes que aqui estive na esperança de afogar –literalmente– as minhas tristezas e desencantos. Vez ou outra eu recobrarei o auxílio do oxigênio, para que este renove o meu fôlego e eu torne a mergulhar. É tão agradável estar aqui, protegida e só. Mesmo com a chuva, fina e fria, que cai agora a água se mantém morna e eu me sinto leve. Se eu fechar bem os olhos, posso jurar estar voando.

  Infelizmente, não é sempre que eu posso estar aqui. Confesso que a minha presença aqui é um segredo, ou pior, aqui estou “às escondidas”. Mas é incontrolável, ela sempre está aqui tão solitária e tristonha... Sempre que eu vejo a casa ao lado vazia é um encanto só: Eu venho de pressa, pulo o muro e nado na piscina alheia até reorganizar os meus pensamentos. 

 Ah, eu me esqueci! Só para esclarecer. Algumas pessoas devem pensar que eu estou louca por ai, pulando muros e usufruindo de piscinas alheias. Não, não. Meus vizinhos não têm piscina, portanto, eu não serei presa por invasão domiciliar, rs. Mil beijos, e obrigada pelos comentários que estão cada vez me deixando mais contente.                                                                                

segunda-feira, novembro 15, 2010

Eu sou: Vitória ou Régia?

  Os meus dias têm sido incomuns e assustadores. Semana passada, por exemplo, eu encontrei uma estranha em meu quarto, a qual me atropelara com centenas de perguntas, com questionamentos dignos de um investigador criminal. Eu juro não ter entregado a nenhum desconhecido a chave de minha casa e as dúvidas de minha vida. Eu sempre me mantive severamente reservada e impenetrável, assim como as portas e janelas de onde eu moro. Após o susto, eu tentei expulsá-la com pressa, mas a perdi num átimo ao pestanejar incrédula pela décima vez. Odiei a surrealidade de como a minha visitante viera e se fora instantaneamente, sem ao menos despedir-se. Eu me surpreendi seriamente ao notar que agora havia apenas eu e o meu reflexo refletido pelo espelho –Talvez, seja melhor assim– eu pensei sozinha, enquanto me indagava se eu estava realmente lúcida. Porém, o que me arranca o sono e furta a minha tranquilidade é saber que, novamente, eu não me reconheci. Pois, era eu quem houvera me visitado.

   Desse dia em diante, o passado me visita e me atormenta com um único flash back. Desfilam frente aos meus olhos as recordações de uma noite de acampamento... Vejo-me, nessa lembrança, afastando-me dos meus amigos, seguindo impetuosa e distraidamente a grande esfera branca que ilumina o céu, a qual se encontrava cercada de pontinhos cintilantes. Adoraria que, ao tocá-la, ela clareasse igualmente a minha vida. Segui-a até encontrar um vasto lago, tão sereno e sedutor, o qual refletia a lua e me atraia, fazendo-me esquecer da água possivelmente fria, da profundidade e do perigo de esbarrar com outras lendas... Quando eu olhei para mim, era tarde: A escuridão da noite fundiu-se a do lago, a água abraçava a minha cintura e eu me sentia estranhamente feliz por me aproximar da lua que enfeitava o lago. E após isso, eu conseguia sentir o frescor e a pureza da água em meus lábios, já que essa me invadia a boca, o nariz e ouvidos. O lago engoliu-me carinhosamente naquela noite. 

   E hoje, ao término desse flash back, que me ocorre diariamente, eu entendo porque eu não me reconheço de antemão ao encontrar-me comigo mesma. Eu compreendo porque eu não consigo dizer quem sou eu. Esses fatos se dão por há tempos eu ter deixado uma parte de mim se perder, se afogar. Permaneço, então, como um cubo mágico incompleto.

A Lary me propôs a muito tempo escrevermos (eu, ela e Clarinha) textos sobre crise existencial. Desculpem-me pela demora meninas!

 Mesmo parecendo não ser, esse é um texto sobre crise existencial. Eu esquivei-me do padrão dos textos sobre esse assunto, eu sei, e a princípio essa nem era a minha intenção, mas as palavras assim o desenrolaram. Espero que o texto não tenha ficado muito confuso e que a mensagem, mesmo estando implícita, tenha sido entendida. Ah, peço desculpas pelo tempo sem postar, é que eu estava sem poder usar o computador e não tenho escrito com tanta frequência. Mil beijos.

sábado, outubro 30, 2010

Distante.


 Enquanto o sol a beija, imitando a brisa fresca do mar, a escultura de bronze já não emite a luz do seu brilho original. A sua cor agora é de um dourado envelhecido, quase negro. De seu habitual lugar, ela sempre olha com admiração os vendedores ambulantes passarem com as suas inacabáveis mercadorias e quinquilharias, todas tão coloridas, carregadas nas mãos ou como os seus condutores conseguirem. Sendo esse modo, por vezes, desconfortável para ambos. Porém, eles nunca se esquecem de perdurar o velho e largo sorriso que lhes enfeita o rosto, e o fazem independentemente do perpétuo fardo que lhes castiga as costas e prejudica os passos. Mas, ela sabe que a felicidade que a eles pertence e irradia não lhe pode ser vendida ou emprestada. No entanto, ela deseja senti-la. Dali, estática, ela vira inúmeros casais passearem e deixarem as suas pegadas, junto às promessas pronunciadas e aos corações desenhados, na areia da praia. Presenciara as crianças correndo, brincando de pique e transbordando de uma alegria imensamente ingênua, simplória e invejável. Fitara também pessoas solitárias, as quais transpareciam buscar paz... Sem pressa, elas sentavam-se em uma pedra qualquer e fechavam os olhos, enquanto sentiam o vento afagar o seu rosto. Quanto a estátua: Nunca lhe disseram um “oi”, e ela jamais escutara algo sobre o amor, fé e felicidade. Contudo, ela os assistira e os almejara diariamente, e poderia dizer perfeitamente como era cada um. Assistir ao amor fez dela amável, admirar a fé fez dela fiel e fitar a felicidade fez dela feliz. 


Imagem: Estátua da Brigitte Bardot em Búzios.

As vezes nos julgamos abandonados, sem nada e ninguém! Mas não percebemos que o que tanto sonhamos está ao nosso lado... Ou melhor, pode estar dentro de nós mesmos. Espero que possamos enxergar a proximidade do que nos faz verdadeiramente feliz. E mais que isso, eu espero que, além de percebê-lo, possamos também tocá-lo... 
Mil Beijos C=

terça-feira, outubro 19, 2010

Lixo.

 No início eu sonhei com o dia no qual você viria me buscar, e ao puxar-me para ti não me empurraria mais, e eu me permitiria odiar menos a comum expressão escrita em portas: “puxe, empurre”. Mas há cinco anos eu me encontro aqui, livre e constantemente só, largada ao chão e aos vermes, sendo ambas as minhas fiéis e indesejáveis companhias. Porém, saiba que eu já me acostumei com a dor e com a superfície gélida que me acolhe, e prefiro mesmo me manter aqui... Ou pior, eu apenas não quero admitir a minha escassez de forças para levantar-me num salto, com uma alma nova e brilhante.
 Até ontem, eu não almejara e nem imaginara sublevar-me, mas o seu incomensurável magnetismo me obriga a isto, e antes que eu me ponha de pé, esse imã inconveniente me puxa com brutalidade, furtando-me de mim mesma e da minha solidão, arrastando-me pelas ruas desta cidadezinha velha e esquecida. E a esperança finalmente se recompõe e me diz ser você, mas eu não sinto o seu doce perfume e também não ouço o tenor de sua voz, o que me preocupa. Classifico-me, então, perdida! Atraída e arrastada rudemente por uma força estranha, de origem invisível e intocável, que após certo tempo finaliza-se. Eu adoraria receber de ti um coração e amor novo, puro, impecável... Mas caso isso não seja possível, recicle o meu velho coração enquanto é tempo! Isso já me basta. 

sábado, outubro 16, 2010

Proibido estacionar.



 Sinto-lhe escapar de todas as armadilhas que eu, minuciosamente, montei para capturá-lo e isso, acidamente e assiduamente, corrói as beiras da minha esperança, que de tão longínqua e inatingível torna-se poeira cósmica. Opto, então, por apelar e peço-lhe: – Não olhe para o lado, me responda. Não seja tão tranquilo e compreensivo, reaja! Abandone toda essa inércia. Grite comigo, ao menos desta vez. Faça-me sorrir, ou chorar, não importa. Ofereça-me os seus sentimentos e desperte os meus. Conquiste o meu amor, ou ative o meu ódio! Tire-me, mesmo que contra a sua vontade, desse nada, desse imenso vazio! Permita-se conhecer, deslocar-se, transformar-se, por mais que isso pareça ser ameaçador. Ainda não sei de qual fantasma você se esconde, então, me responda ao menos isso: Permanecerá estacionado para sempre em seus medos e fraquezas? Nada o comove, o alegra, o entristece, tens sido a apatia em pessoa. Confesso que há tempos eu não vejo luz em meus dias, e isso precisa ser mudado... Até quando, então, me deixará sem o seu largo e belo sorriso? Eu adoraria sentir novamente os raios de sol em minha pele.

sexta-feira, outubro 08, 2010

яomA.

“E hoje a noite não tem luar
E eu estou sem ela
Já não sei onde procurar
Não sei onde ela está”
 (Legião Urbana) 
   Todas as noites, nos três primeiros segundos em que o manto negro e estrelado encobria o céu, a mesma pane se repetia: os batimentos cardíacos do jovem rapaz eram interrompidos por um motivo totalmente desconhecido e aterrorizante. Ele desejava ardentemente que o seu surrado coração voltasse a bombear o seu sangue. Assim, também, ele esperava que ela tornasse à sua vida, e trouxesse consigo, em uma caixa, sacola ou no próprio bolso, a felicidade que lhe furtara, inconscientemente, pouco antes de partir. Suscitar-lho a vida seria muitíssimo fácil para ela, e a jovem faria isso majestosamente, como já o fez em um passado remoto, do qual ela tentara se livrar. Porém, mesmo queimando as fotografias em preto e branco, as quais alimentavam a lareira de sua clássica sala, ainda assim, a mente dela permanecera submersa em lembranças boas, que lhe traziam saudade e lhe tiravam a saúde.  
  – E então, até quando? – a bela moça sempre se perguntara de frente para o espelho – Até quando a responsabilidade de torná-lo feliz, e vivo, estará sob o meu cetro, e vice e versa? E ela realmente aguardava ansiosa, por uma resposta que viesse de seu interlocutor mudo, mas aquela era uma pergunta retórica, e ela sabia que seria sempre assim, que só a sua presença e sorriso poderiam consertar a eventual pane. Ela, portanto, resolveu levantar-se e deliberadamente optou por salvá-lo novamente, pois somente assim ela salvaria o seu próprio, e surrado, coração.
 
As vezes, nós pensamos estar fazendo algo muito bom para os outros, mas não notamos o grande bem que isso pode causar a nós mesmos. Quando eu comecei a escrever esse texto, a partir de uma frase que minha mãe disse em certa ocasião, há um mês, eu pensei que esse texto tomaria um rumo diferente, e na verdade já tinha tudo planejado na cabeça, mas o foco mudou, e muito! Enfim, esse é um texto especial demais para mim, e gostei da história ter mudado o rumo que eu imaginara anteriormente. Mil beijos. C=

quinta-feira, setembro 30, 2010

Estátua súbita.

      Imagem do filme: O sorriso de Monalisa
 A neve caia lá fora, lenta e ininterruptamente, e o raro vento frio que ousou invadir o seu refúgio fora suficiente para congelar o sorriso que se expunha na face de sua velha e amada amiga. O ar seco pesou a sua respiração e somou forças a sua constante tristeza, induzindo-o a se esquecer se eles eram ou não felizes, deixando-o em dúvida: Será que os vossos corações transbordavam da mesma alegria que iluminava os vossos lábios? Ou aquele momento fora apenas uma pose, estátua súbita, uma encenação para que fosse realizada a pintura em uma tela em branco, a qual agora possuía um admirador extasiado com o seu tangível realismo e perfeição? Porém, ao se aproximar da cena, ele obteve uma resposta para a pergunta que o sufocara anteriormente: Não, o que lhe encantava os olhos e a alma não era uma bela pintura, por mais imóvel que fosse. Mas, sim, suas lembranças esculpidas no gelo, tão sólido quanto o seu vivaz desejo de reviver os momentos recordados e recortados de seu coração amargurado. 

  Sim, eu estou de volta! Estive dodói, mas já estou bem, e também estive um pouco cansada, o que não me estimulou a postar. Ah, sobre o texto... Eu gosto desse texto, mas penso que ele ainda não expressa exatamente o que eu queria, mas está quase lá (99,9% do que eu pretendia). Confesso que eu fiquei receosa desse se tornar um texto confuso demais, porém ainda assim essa foi uma transliteração límpida e sincera. E talvez eu escreva uma continuação para essa história, espero que tenham gostado e que a mensagem tenha sido passada. Mil beijos.  C=