sexta-feira, dezembro 17, 2010

E todos por um.

   Ao longe, as raras árvores que ali estavam cochichavam e especulavam sobre o possível dilema do casal mais a frente. Porém, somente a estrada junto à vasta grama, de um verde vivaz e um silêncio comum, pôde presenciar e quase sentir o drama estampar o rosto do rapaz assim que ele percebera que Joana já o esperava. Enquanto isso, a mesma aflição fazia cintilar os olhos da bela moça, mesmo que ele ainda não pudesse ver este último.
  
   A amizade que a eles unia era de longa data, mas há tempos havia se desfeito de um modo frio e inexplicável. E isso rendera longas noites de insônia e pares de olheiras à jovem que não se conformara com o fim. Na verdade, eram três: Joana, Cássio e Arthur. Os três mosqueteiros, assim era como eles se autonomeavam na infância. Mas hoje, crescidos e distantes, há cinco anos, não cumprem o antigo imprescindível dilema de “um por todos, e todos por um”. As lágrimas de tristeza e os turbilhões de saudade e angústia vieram quando os dois irmãos, Cássio e Arthur, se mudaram do país, sem ao menos se despedir. Joana nunca se conformara ou compreendera o que os levou a tal atitude, e perdoá-los seria ainda mais complicado.

  – Você continua linda. – Cássio disse num tom sério, enquanto encarava fixamente a moça.

  – Certamente o assunto que o fez lembrar-se de mim não é a minha beleza. – Joana retrucou séria e fria enquanto virava-se para vê-lo.

  – Sim... Mas obrigado por ter vindo. – O tom de Cássio era cortante, e os olhos sempre fixos em Joana.

  – Era isso que pedira na carta. – Ela disse dando-o as costas, enquanto lutava contra as lágrimas.

  – Eu sei que eu e o Arthur agimos de uma forma muitíssimo ruim, viajamos sem nos despedir. E isso também nos magoou, mas é que nós descobrimos...

  – Descobriram que nós não somos mais crianças, e nem todos por um não é? – Ela o interrompeu e prosseguiu. – Sabe... Desculpe-me Cássio. Na verdade, foi horrível estar aqui sem vocês, sem notícias. Eu só precisava ouvir a voz de vocês. Eu amo tanto vocês dois, sempre os amei. E peço perdão por estar lhe tratando tão mal. – Ela não tinha coragem para virar-se.

  – Joana, querida! Sinto muito, mas o Arthur não está mais aqui. Ele se foi, e para sempre. Ele não queria que você soubesse que ele estava doente, por isso viajamos.

  Joana levou a mão à cabeça, estava zonza e o seu cérebro processava a triste informação. É claro que saber tão abruptamente da morte de seu querido amigo de infância a deixou em choque, paralisada. As únicas palavras que conseguiram escapar dos lábios foram:
  – Não, não! Por favor Cássio, vá embora! Chega de mentiras. Por que você está fazendo isso comigo!? – Ela disse isso aos prantos, porém de uma forma fraca e inconformada, literalmente em choque.

  – Perdoe-me Joana! Eu também sinto muitíssimo. Sei o quanto isso é difícil para todos nós. Mas irei respeitar a sua vontade... Vou deixá-la sozinha. Mas, se você quiser o meu carinho e consolo eu estarei por perto. Eu voltei a morar na antiga casa amarela. – Ele se despediu assim, deixando que algumas lágrimas insistentes tocassem o chão. Ele se fora em total silêncio e angústia.

  Joana chorou copiosamente durante alguns segundos, os mais longos e tristonhos da sua vida e decidiu-se, aturdida e confusa, ir atrás de Cássio. Ela o alcançou após curta corrida, e gritou afogada em lágrimas:

 – Cássio! Diga-me que é mentira, que tudo é apenas um pesadelo.

 – Não, Joaninha, infelizmente é real. – Ele a abraçou de um modo lindo, as gotículas gélidas também caiam de seus olhos. Sentaram-se na grama, a qual não demonstrava a vivacidade anterior, e permaneceram ali longos minutos. A conversa fora mantida pelas trocas de olhares e consolo. Ainda que a incomensurável e insuportável tristeza percorresse cada artéria de Joana, ela ainda possuía a amizade de Cássio.

  Pauta para o projeto Bloínques, 7ª Edição roteiro.

 Essa é a minha segunda participação no protejo Bloínques, e a primeira na edição roteiro. O texto ficou extenso, eu sei, mas espero que agrade.

 Mil beijos, queridos!                                                                                                        

18 comentários:

Felipe Faverani disse...

Oi, Carol, tudo bem?
Que delícia ler essa história! É bom perceber que você tem essa maleabilidade de gêneros. Suas palavras se unem tão perfeita e docemente. Adorei, viu? Espero que publique mais textos dessa forma em breve.
Grande beijo.

Leeti disse...

É triste perder quem amamos Ç.Ç
mas é sempre bom quando ainda temos com quem contar, né?
beijo ;*

Leeti disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriele Santos disse...

Que belo texto moça.
Um belissimo roteiro.
Eles erraram, mas que bom que deu tempo de pelo menos um voltar e pedir desculpas pelos dois.
E que voltem os três mosqueteiros novamente nem que seja só em sonho ou lembranças.

Italo Stauffenberg disse...

quando o texto é bom, não importa se é grande!

Abraço

Gabriela Lauriano disse...

" Quando o texto é bom,não importa se é grande "
Realmente,seus textos prendem a minha atenção,suas palavras são tão bem colocadas.
Parabéns mesmo,vc escreve mt bem.
Beijos *-*

Teentação disse...

como vc escreve beeem Carol
Babei aqui^^
seguindo-te
retribua Ok?
Bjôs

Camila disse...

É sempre triste perder alguém que amamos.
Eu gostei do texto! :) Boa sorte no Bloínquês.

Beijos ;**

@Lôoh_Toledo disse...

a pior coisa que existe é perder a quem se ama, mas é bom saber que a com quem se contar!
bejos e bom texto ;*

Will Lukazi disse...

minina kerolaine, vc escreve divinAMENTE..nao tenho como nao segui-la. um belo texto, com situaçoes interessantes e questoes comuns de nosso dia a dia. ja to seguindo seu blog. qdo quiser visitar meu blog será uma honra para mim...me chamo will lukazi e busco pela postagem nº 1000....bj

Camila disse...

Ah, não precisa agradecer :) Você mereceu o primeiro lugar! ;**

Pedro Menuchelli disse...

Adorei o texto e estou me sentindo muito bem porque até parece que estou dentro da história. Esse seu jogo de palavras se encaixa muito bem no contexto que pretende passar.
Continue assim tá?

Beijão!

deh ramos disse...

Oi, Carol! Caramba, primeiramente eu tenho que vir aqui te agradecer pelo seu carinho lá no meu cantinho. É sempre um prazer enorme para mim tẽ-la dos lados de lá, rs. Pois bem, eu li e reli esse seu texto umas 4 vezes durante esses dias. E toda hora que chegava o momento de comentar, as palavras me fugiam um pouco, sabe? E eu detesto comentar besteiras, coisas desnecessárias.. Por isso preferi me dar um pouco mais de tempo para pensar em algo a altura (:

Então.. Esse texto me tocou muito, talvez mais do que os outros até. Porque me fez lembrar de um livro que li no inicio deste ano e marcou demais minha vida mesmo. Se chama "Soul Love - À noite o céu é perfeito". Assim, a história do livro, a princípio, é bem agua com açúcar, romance bobo mesmo. Mas depois o psicológico da protagonista meio que vai invadindo quem lê, entende? Foi bem legal e confuso ao mesmo tempo reviver o que eu senti lendo-o ao visualizar suas palavras. Me encanta a maneira como você descreve as coisas, os gestos e os próprios pensamentos dos personagens ^^

Outra coisa, meu último post não foi autobiografico. Pelo menos não dessa vez. Eu estou mais parecida com o espírito do penúltimo (sobre o presente de natal); Tô bem encantada em relação à vida. Quase uma criança novamente, rsrs.


Beijão, querida. Obrigada por tudo!!

Clara disse...

Ahh, eu gostei! Acho que é primeiro texto seu que leio com diálogos e vc é muito boa! Muito triste a história, perder um amigo deve ser uma dor inimaginável... mas a vida sempre continua, neh? E existem os outros amigos.

:) Beijos! Desculpe por não ter lembrando que vc me indicou no meme. Ainda te indiquei, que mico! ashuahsua! Mas vou deixar lá pra lembrar! :P

Patrícia N. disse...

Muito legal seu texto,uma bela adaptação dos 3 mosqueteiros! :D

JhonSiller disse...

Adorei seu roteiro, quero vê-la no pódio ok?
Beijos

Isabelle. disse...

Apesar do contexto triste, acho que o texto passa uma mensagem extremamente bonita de amizade.
Às vezes, não importa quanto tempo passe, nós ainda temos a amizade de algumas pessoas, o que nos conforta - e muito.

Você é uma queridíssima, sabia? Seus comentários sempre lindos, você sempre linda...Um amor! :)

Feliz natal, e um ótimo ano novo, viu?! Que tudo de melhor aconteça na sua vida por que, por mais que não te conheça, sinto que você merece tudo de bom que esse mundo possa te oferecer!
Precisando de alguma coisa, DE VERDADE, é só comentar no meu blog, linda! :)

Mil beijos.

Felipe Faverani disse...

Oi, Carol, tudo bem?

Eu que devo agradecer pelo carinho e pelos elogios, meu anjo. Me deixa muito contente saber que posso encontrar conforto nas palavras de colegas como você, que escrevem brilhantemente bem.
Quanto ao conto, fique à vontade para reescrevê-lo tendo a Dora como narradora. Será um prazer lê-lo escrito a partir do ponto de vista dela e creio que fará um bom trabalho. Aguarde e verá como ela se revelará na história! rs
Grande beijo e muito obrigado pelo seu comentário.