sexta-feira, janeiro 25, 2013

De efeito.



  O sol desponta no alto do prédio vizinho, avança impetuoso com o passar das horas e atinge o topo do céu ao meio dia, alcançando uma pequena fenda na janela do quarto de Arthur. O despertador natural atinge o seu objetivo: iluminar quem precisa de luz. E embora os raios golpeiem a sua face, fora a noite quem o deixou com marcas nos olhos. Um par de olheiras estampa o seu rosto e mais uma madrugada mal dormida fora registrada em sua longa conta. 

  Como de costume, lava o rosto e sai pela porta dos fundos para comprar jornal. Ainda que haja um modo de sair de casa sem encarar a caixa de correios, lá permanece ela simpática e metálica a luzir um riso sádico. Ela bem sabe a importância do que guarda e a capacidade de destruição que singelos papéis possuem. Tão finos, tão claros, tão poderosos quanto uma bomba nuclear. O dano físico seria ínfimo, quase nulo, mas o dano moral tornar-se-á imensurável caso o destinatário os aceite.

  Valsar com os defeitos, amá-los e intensificá-los exige obstinação e força para conviver com a hipótese de receber tudo de volta no futuro – sendo este longínquo ou não. Afinal, com o passar do tempo toda árvore floresce e o que era diminuto expande-se, duplica-se, cresce e volta à origem sendo bom ou ruim.  
 
  Ouvir a própria consciência é uma dádiva, ou uma insanidade – depende sempre do que esta diz. Arthur ouvira a dele, voltou alguns passos e fora fitar a caixa metálica que estava intocada há quase um mês. Ao abri-la, os seus olhos devoraram uma frase fixada no envelope em cima de uma pilha de papéis: E todos os defeitos que você deixou para trás estão nesse envelope, acho justo que estes pertences sejam entregues ao dono e que o persigam.” 

  A mão trêmula suava enquanto Arthur direcionava-se de volta à casa em passos largos, quase correndo. Os papéis acompanharam-no durante os dez minutos em que ele andou de um lado para o outro – sem rumo – deliberando entre sentar-se no sofá e ler tudo, ou fugir de si mesmo. Escolhera a primeira opção, pois seria menos trabalhoso encarar a verdade, apesar de mais doloroso.

  As contas atrasadas de água, energia elétrica e telefone foram atiradas na mesinha de centro, ficando somente em suas mãos o envelope amarelo. Releu a primeira frase, engoliu a seco e seguiu em frente. Os outros papéis que recheavam o envelope eram apenas fotos. Aliás, eram provas de que a tentativa de deixar o passado para trás falhara. Cada foto possuía uma legenda composta por uma única palavra; um defeito transliterando uma imagem. Na primeira estava escrito “covarde” na cor vermelha, nas outras dezenove mais imperfeições estampadas sempre no tom do sangue.

  Seja a lei branda ou rigorosa, e mesmo que a justiça tenha o seu próprio juiz, há outro ainda maior e mais severo. Embora a longa pena na prisão já houvesse sido cumprida, o preço a ser pago fazia-se altíssimo. Arthur era torturado pela sua consciência diariamente e pela pessoa que o presenteava semanalmente com as fotos de seus crimes remotos, relembrando-o os defeitos que ele tentara enterrar. Devolvendo-o a dor que cada ação condenável causara em suas vítimas. O arrependimento transformou-o, mas o fardo tornara-se pesado. Os defeitos foram deixados para trás, mas as conseqüências nunca o serão. 

Ano novo  e eu decidi voltar a postar. Tendo ou não inspiração é realmente impossível fugir da escrita, do modo como ela alimenta-me e faz crescer. Talvez o meu estilo tenha mudado um pouco, talvez seja apenas nesse texto. Só sei que gostei de escrever assim, um jeito mais simples. Beijos. 

sábado, julho 28, 2012

Eu quis a pedra que tinha no caminho.


  Passara-me e repassara-me. Ultrapassara-me. Talvez a culpa seja minha, afinal, eu me arriscara deliberadamente em parar no tempo. Baixara guarda e dispensara a honrosa e fiel cavalaria. Desfizera-me da armadura e com ela fora o meu ego narcisista; melhor assim, eu concluíra que aprender autodefesa também é importante. E o meu melhor ataque contra a pressa do tempo não fora a defesa, como o clichê sugerira, mas sim agregar ao meu jogo a pedra do adversário – eu imaginara que o xadrez da vida ficaria mais interessante dessa forma, e ficou.

  Eu gracejara com os ponteiros, retardara os segundos e derreara os lábios ao notar que o tempo ainda assim insistira em desdenhar-me – ele não quer comprar, nunca quis – e fizera questão de lançar na minha vasta estrada mais uma de suas volumosas pedras. Mas ao contrário do habitual, eu não almejara o caminho; era justamente o pedregulho que eu desejara.

  Uma peça a mais no tabuleiro o tempo me dera, e deu-me essa pedra de ingênuo que foi. Arrastei-a até um local de sombra, recostei-me nela e tomei meu livro. Pus-me a rir baixinho enquanto lia, achei graça desse tempo ligeiro que me passa, repassa e ultrapassa, mas que nunca vive. Eu sim, eu vivo: caminho, mas descanso quando necessário, ou apenas diminuo o ritmo da caminhada – sem me culpar – já ele não. É escravo de uma ampulheta qualquer, ou sempre se põe a tiquetaquear sem destino.  Some no vento, é um eterno intangível. Coitado do tempo, pensa que vive e jura ser juíz. 

  Coitado do tempo. Eu sim, eu vivo; com ou sem pedra no caminho.          

Bem, espero que vocês tenham gostado do texto. Foi uma breve homenagem ao Carlos Drummond e sua famosa "pedra no caminho" e, além disso, uma pequena releitura com um ponto de vista diferente sobre o tema 'as pedras que surgem em nossa vida'. Eu quis a pedra, recusei o caminho, risos. Afinal, no xadrez, é vantagem ter mais pedras (peças) do que o adversário. Bom fim de semana para todos! Fiquem com Deus.