
As vozes diziam pausadamente com vigor e expectativa: Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três. – E nada. As tentativas totalizaram-se em quatro, no entanto, para que o fio da meada não escorregue ligeiro entre os meus dedos, dedicar-me-ei em tentar recordar o antes.
As luzes noturnas enfeitam a cidade maravilhosa, de beleza natural tão cintilante quanto o tapete de estrelas artificiais que a veste. Porém, o cinza urbano e as luminosidades dos edifícios, casas noturnas e festas têm ofuscado uma luz esplendorosa; A qual é ostentada pela esfera prateada e longínqua, espargindo sobre nós gotas de prata, sejam essas de júbilo ou melancolia.
Eu constatara todo esse espetáculo ao deixar escapar-me uma olhadela em direção a janela aberta, sedutora. Enquanto, a noite me sorria ufana por ser a senhora de tamanha excelência. O vento tépido de verão convidou-me presunçoso a saborear a noite de perto. O encantador e taciturno convite elevou-se, posicionando-se bem ao centro da minha janela; Clareando com imponência a minha face e olhar, a lua deitou-se venturosa sobre o seu eterno trono.
Já que eu não posso vestir-me de prata, substituo-a pelo meu vestido leve de flores simplórias. Decoro as orelhas com brincos tímidos, tão discretos quanto o meu risinho sereno ao flagrar-me tão contente. Solto os meus longos cachos sem pudor e, logo em seguida, tinjo os meus lábios com um batom cor de rosa; E o cheiro fraco de morango faz-me sentir ainda mais jovial. Aconchego os meus pés em sandálias baixas e, por fim, apanho uma bolsa com mãos ávidas suspendendo-a lateralmente, – contendo, nesta, apenas alguns trocados e a minha câmera fotográfica, juntamente a minha felicidade-reserva; Caso a que se abriga em mim seja furtada ao agitar da brisa, atraída e carregada pelo frescor litorâneo.
Eu comprimi o dedo indicador nos interruptores, apagando as luzes das lâmpadas uma a uma. Permiti que somente a luz do luar banhasse o meu modesto apartamento antes de trancá-lo. Desci as escadas correndo, para desfrutar de cada momento em que o manto estrelado estampara o céu. Atravessei a porta do prédio saltitante, e gritei desculpas de longe por ter esbarrado fortemente em uma senhora. Enfim nós, eu e a noite – eu sibilei ao olhar para o alto. E após isso... Bem, após isso, eu não recordo de nada além da luz intensa e desconhecida que me atingiu veloz. Tão feroz.
Abri meus olhos e espiei em volta. Onde eu estava? Na verdade, onde eu ainda estou? Nem mesmo posso arregalar os olhos de surpresa, pois, apesar de enxergar, não os possuo. No entanto, o azul que estampa as paredes do cômodo é tão suave quanto o do céu que eu vislumbrara em meus devaneios. Talvez, a morte seja distinta a tudo que pressupus um dia. Porém, agora que eu a vivo saberei.
A maca que decora o quarto é tão pálida quanto a face do corpo que a preenche – do meu ex-corpo. E ao considerar essa hipótese eu corro de pressa para ver-me de perto. Porém, não vejo as minhas pernas movimentarem-se tão efusivas quanto os meus pensamentos. Enfim, chego e aliso a face do meu corpo com as pontas dos dedos que não vejo; Acaricio igualmente a mão tão morta quanto o corpo que ocupa a cama, e despeço-me esperançosa.
Entendo, no entanto, o porquê de tantas contagens; A cada três segundos uma nova expectativa de reavivar-me invadia os médios que nunca foram amigos meus – e nunca saberiam sobre a minha flor predileta, perfume ou paisagem. No entanto, os escassos segundos de vida tornam-se muitíssimos essenciais; Até mesmo para as pessoas que nunca me amaram, mas que hoje lutaram bravamente contra o tempo, contra a morte do meu corpo. Confesso que eu ainda não sei onde estou, mas o cantar ao fundo dos anjos me enche de esperanças – alertando-me do lugar esplêndido que eu acabara de adentrar.
Bem, eu acho que esse texto foi um dos mais ousados que escorregaram pelos meus dedos. Espero que tenham gostado, pois para mim foi um pequeno desafio transliterá-lo.
Eu peço desculpas caso não possa comentar nos blogs que mais gosto assiduamente essa semana, é que provavelmente eu o faça com mais dedicação aos fins de semana. Com as aulas, devo reduzir o tempo no computador. Mas, saibam que não os abandonarei! Grande beijo, fiquem com Deus.






