segunda-feira, fevereiro 21, 2011

(Re)viver.


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  As vozes diziam pausadamente com vigor e expectativa: Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três... Um, dois, três. – E nada. As tentativas totalizaram-se em quatro, no entanto, para que o fio da meada não escorregue ligeiro entre os meus dedos, dedicar-me-ei em tentar recordar o antes.


 As luzes noturnas enfeitam a cidade maravilhosa, de beleza natural tão cintilante quanto o tapete de estrelas artificiais que a veste. Porém, o cinza urbano e as luminosidades dos edifícios, casas noturnas e festas têm ofuscado uma luz esplendorosa; A qual é ostentada pela esfera prateada e longínqua, espargindo sobre nós gotas de prata, sejam essas de júbilo ou melancolia. 

 Eu constatara todo esse espetáculo ao deixar escapar-me uma olhadela em direção a janela aberta, sedutora. Enquanto, a noite me sorria ufana por ser a senhora de tamanha excelência. O vento tépido de verão convidou-me presunçoso a saborear a noite de perto. O encantador e taciturno convite elevou-se, posicionando-se bem ao centro da minha janela; Clareando com imponência a minha face e olhar, a lua deitou-se venturosa sobre o seu eterno trono.

 Já que eu não posso vestir-me de prata, substituo-a pelo meu vestido leve de flores simplórias. Decoro as orelhas com brincos tímidos, tão discretos quanto o meu risinho sereno ao flagrar-me tão contente. Solto os meus longos cachos sem pudor e, logo em seguida, tinjo os meus lábios com um batom cor de rosa; E o cheiro fraco de morango faz-me sentir ainda mais jovial. Aconchego os meus pés em sandálias baixas e, por fim, apanho uma bolsa com mãos ávidas suspendendo-a lateralmente, – contendo, nesta, apenas alguns trocados e a minha câmera fotográfica, juntamente a minha felicidade-reserva; Caso a que se abriga em mim seja furtada ao agitar da brisa, atraída e carregada pelo frescor litorâneo.

  Eu comprimi o dedo indicador nos interruptores, apagando as luzes das lâmpadas uma a uma. Permiti que somente a luz do luar banhasse o meu modesto apartamento antes de trancá-lo. Desci as escadas correndo, para desfrutar de cada momento em que o manto estrelado estampara o céu. Atravessei a porta do prédio saltitante, e gritei  desculpas de longe por ter esbarrado fortemente em uma senhora. Enfim nós, eu e a noite eu sibilei ao olhar para o alto. E após isso... Bem, após isso, eu não recordo de nada além da luz intensa e desconhecida que me atingiu veloz. Tão feroz.

  Abri meus olhos e espiei em volta. Onde eu estava? Na verdade, onde eu ainda estou? Nem mesmo posso arregalar os olhos de surpresa, pois, apesar de enxergar, não os possuo. No entanto, o azul que estampa as paredes do cômodo é tão suave quanto o do céu que eu vislumbrara em meus devaneios. Talvez, a morte seja distinta a tudo que pressupus um dia. Porém, agora que eu a vivo saberei. 

 A maca que decora o quarto é tão pálida quanto a face do corpo que a preenche  do meu ex-corpo. E ao considerar essa hipótese eu corro de pressa para ver-me de perto. Porém, não vejo as minhas pernas movimentarem-se tão efusivas quanto os meus pensamentos. Enfim, chego e aliso a face do meu corpo com as pontas dos dedos que não vejo; Acaricio igualmente a mão tão morta quanto o corpo que ocupa a cama, e despeço-me esperançosa.

 Entendo, no entanto, o porquê de tantas contagens; A cada três segundos uma nova expectativa de reavivar-me invadia os médios que nunca foram amigos meus – e nunca saberiam sobre a minha flor predileta, perfume ou paisagem. No entanto, os escassos segundos de vida tornam-se muitíssimos essenciais; Até mesmo para as pessoas que nunca me amaram, mas que hoje lutaram bravamente contra o tempo, contra a morte do meu corpo. Confesso que eu ainda não sei onde estou, mas o cantar ao fundo dos anjos me enche de esperanças – alertando-me do lugar esplêndido que eu acabara de adentrar.



Pauta para 55ª edição conto/história, Blq.

 Bem, eu acho que esse texto foi um dos mais ousados que escorregaram pelos meus dedos. Espero que tenham gostado, pois para mim foi um pequeno desafio transliterá-lo.
 Eu peço desculpas caso não possa comentar nos blogs que mais gosto assiduamente essa semana, é que provavelmente eu o faça com mais dedicação aos fins de semana. Com as aulas, devo reduzir o tempo no computador. Mas, saibam que não os abandonarei! Grande beijo, fiquem com Deus.

24 comentários:

Arianne Carla disse...

Minha querida, Carol. Ah, flor! Você é uma das poucas blogueiras a qual estou comunicando individualmente que permanecerei distante do blog por um tempo indeterminado. Precisarei de um tempo para tudo na minha vida e isso encontrarei em meu solitário quarto e livros. Preciso de um tempo... Compreendes? A única coisa que é amarga é ficar longe dos seus contos e textos. Belíssimos e de grande riqueza! Voltarei, isso é certo, mas quando as ondas irem na direção certa. Beijos, linda. Tá explicando no meu blog.

Maiara disse...

Ah Carol, cada vez mais que aprecio os seus textos sinto-me presa ainda mais às suas palavras. É como se elas fizessem parte de mim, como se eu precisasse delas. Eu realmente estou embasbacada por tamanho talento, e quando venho aqui ler os seus textos penso que não serei capaz de dizer mais nada. Esse me deixou sem palavras por um tempo que eu não sei definir, fiquei aqui a observar tamanha beleza.
E se um dia - e há de ser -, eu ver o seu nome na lombada de um livro sou capaz de chamar a atenção de toda uma livraria por exaltação de euforia.
E sim, você acertou como sempre, foi mais uma leitura esplêndida para mim. A intensidade com que você distribuiu os fatos, os detalhes tão protuberantes, as emoções presentes até nas vírgulas, tudo, tudo.
E eu é que tenho a agradecer, sempre, por poder desfrutar dessas suas palavras tão ricas.

Beijo grande querida.

Clara disse...

Que lindo, Carol! [isso está ficando repetitivo, eu sei!]

Acho que esse é o seu texto que mais gosto... Tão profundo! Fiquei curiosa pra saber o que realmente aconteceu à personagem assim tão de repente. Achei suave o jeito que você abordou a morte, apesar do frio na espinha que deu... Pobrezinha!

Você é ótima!

Dani Ferreira disse...

Ai Cah, não tenho mais palavras para descrever as sensações que os seus textos me transmitem.
É uma leveza tão gostosa, uma descrição tão detalhada, é de deixar qualquer um encantado e satisfeito quando o texto termina.
E a história, mesmo falando sobre a morte e tal, é viva, iluminada.
Quanto talento rs *-*
Bgs Cah ;*

Pedro Menuchelli disse...

É sempre uma honra poder ler seus textos Carol. É incrivel, mas toda vez que venho aqui saio mais forte, saio muito mais apto a entender diversas coisas que pra mim, pareciam não ter valor nenhum. Você é uma das poucas pessoas por aqui que escrevem com o coração, e isso é um dom. Cuide bem dele. Saiba que tem uma pessoa, longe, mas que adora ler o que você posta. De verdade. Um grande beijo e uma ótima semana,

Pedro

Manie disse...

hey, obrigada pelo comentário em meu texto! claro que não me incomodo, mt pelo contrário, fico muito feliz em saber que vc também gostou do que eu escrevo.

bjss!

Maiara disse...

Ah querida, as suas palavras são um reconforto para mim. Sabe, depois daquela crítica eu li e reli o meu texto, mesmo depois de já ter feito isso antes. E eu realmente não encontrei nada que merecesse um 'puxão de orelha'. Eu agradeci pela mesma, porque já que exponho os meus textos estou aberta a receber os mais variados tipos de comentários, das mais variadas pessoas, e você sabe que nem o maior homem que já caminhou na terra agradou a todos, quem somos nós não é mesmo?
E eu sempre amei adjetivos, acho que eles dão tanta vida aos textos, assim como os seus, que eu sempre me maravilho por você saber usar, e usá-los com tanta graça, dando movimento e textura a qualquer simples palavra exposta.
E muito obrigada mesmo por suas palavras, elas me tranquilizam, de verdade. (Eu realmente precisava de uma segunda opinião, e partida de você ela se fez demasiado importante).

Beijo grande.

Dani Ferreira disse...

Oi Cah, então... É porque eu uso blogskin, então não atualiza na lista mesmo D: Essa é a desvantagem desse tipo de lay. Acho que não tem como mudar :/
Bgs ;*

Yohana SanFer disse...

Caroline, numa antiga visita elogiei tua escrita. Nesta nova visita, não queria ser repetitiva mas me diz como não ser? Tua escrita poética e criativa é encantadora! Parabéns pelo talento! E tenha certeza que este texto cativa sim pela ousadia e emoção! Bjs moça!

Jaynne Santos disse...

Querida, esse seu texto penetrou em mim de tal forma que de repente já me vi cúmplice de suas palavras tão bem expressadas e seguras de si.
Sua escrita é cheia de uma personalidade só sua, de um carisma só seu. Esse realmente foi o texto mais ousado seu que eu já li e não foi só o mais ousado não, foi o mais expressivo, mais dotado de uma sinceridade que caracteriza a personagem.
É sempre uma felicidade pra meus olhos passar por aqui e uma riqueza para meus pensamentos, que ficam mais aguçados diante de tamanha beleza aqui avistada.

Beijos Flor;

C. disse...

Querida Caroline,

Que bom se pudéssemos, em vida, ter a mesma sensação dos últimos segundos, de lutar bravamente contra a morte dos nossos sentidos. E na imortalidade termos a mesma certeza de ouvir passarinhos cantando, alegres, como no texto.

Adorei!

moi-memê. disse...

Caramba que texto hein. Adorei, parabéns. Você escreve muitíssimo bem e o seu blog é muito fofo. *-* adoro violetas. haha

beijos

• cynthia bs disse...

O que mais me impressionou foi a tranquilidade e soberania como escreveste este conto. Toda a calmaria foi traduzida em elegância, o que ficou muito natural. Não há nada mais belo como cintilar sorrisos perante o brilho suave da lua e das estrelas no espaço magnífico que preenche a noite. O conto foi invadido por algo "veloz" e "feroz", e confesso que gelei nesta parte. Tudo estava a ser muito calmo para se realidade. Então bem na íntegra do conto nasceu a parte mais elegante, mais forte, mais exuberante! "Talvez, a morte seja distinta a tudo que pressupus um dia. Porém agora que eu a vivo saberei". Juro que essas palavras me fizeram extasiar por um momento. "Viver" a morte, creio eu que não seja algo muito fácil. Muito menos para aqueles que a temem, como se fossem viver eternamente. Nós nunca saberemos como nos adaptarmos ou nos acostumarmos, por fim, à ela. Gostei da forma como lhe deste quanto à isto. E, como sempre, os detalhes, que desta vez não se limitaram em simplesmente aparecer, mas em preencher corações meiguíssimos que optam por ler este conto.
Cáh, querida, fico demasiadamente feliz que tenhas gostado de meu conto. Tua opinião é sempre importante. Muito obrigada e voltes sempre.

O Senhor Jesus permaneça sempre lado a lado com você e te ajude e ampare no que precisares. Beijinhos.

Com amor,
Cynthia**

• cynthia bs disse...

Tem selinho para você em meu blog, Carol (:
Beijos *

Ill Circus disse...

Texto lindo, como sempre :')

• cynthia bs disse...

"SELO MEU BLOG TEM TALENTO" para você lá no "Flores de um jardim". Espero que gostes, Carol. Encontra-se no finalzinho da página "Selinhos". Espero que gostes, amor.

Beijos ;**

Karine Lima disse...

Oi, adorei teu blog!
Tá ótimo!!! To seguindo aqui,
visita o meu e se gostar siga!
beijo.

http://livreelouca.blogspot.com/

Tania T. disse...

Nossa!! Adorei o texto..

Ficou perfeito!!

Cada detalhe.. cada escrito.. menina você é demais!!


.. volta as aulas.. começa a correria né? Também to super corrida por aqui.. rsrs'

Sucesso pra vc!

Bjãoo

C. disse...

Tao gostoso entrar no blog e encontrar coments feito o seu, e de algumas outras poucas pessoas, que a gente sabe saboreiam de verdade a leitura, entram no nosso mundo de fantasia, tto qto nós mesmas, nao é!

Ontem rabiscando um texto, lembrei desse seu... nao escrevi com a mesma desenvoltura, até pq meus textos sao curtos, mas o contexto em geral. Vc verá.

Um ótimo fim de semana,
beijinhos!

Cris

Jaynne Santos disse...

Ah, tem selinho para você no meu blog!
Passa lá quando puder;

http://jaynnesantos.blogspot.com/p/selos.html

Beijo;

Elania disse...

Que lindo e triste, de uma doçura tão profundo, um toque infantil de ingenuidade, saboreando o sorriso, não chorando a própria morte. Muito lindo mesmo, sua escrita, o choque suave que dá na nossa mente a cada palavra.
Muito bom (:

Alexandre Fernandes disse...

Um texto muito lindo. Um breve delinear sobre o que trespassa nossa vã existência carnal. É um breve despertar num lugar ao qual entendemos por ser luz. Mas um lutar para retornarmos a respirar. Parece uma penumbra, onde vivemos sem realmente estar vivos, mas persistimos para continuar a viver.

Uma assimialação da nossa passagem. Mas da nossa fiel vontade de permanecer. Não ir. Ainda restar.

Um dos textos mais lindos que já li aqui. Realmente ousado.

Beijos Carol!

Maiara disse...

Ah querida, muito obrigada. Senti sua falta, mas vim aqui para matar a saudade, li o seu poema sobre a vingança, e que me encantou profundamente, já não sei dizer o quanto as suas palavras sempre me ganham, sempre e sempre. Esse efeito que me causa é realmente maravilhoso, e eu sempre venho aqui à procura de mais.
Entendo bem esse período que o tempo não sobra, ele ainda está me sobrando, mas sei que em breve ele será roubado de mim em doses maiores, contundo, inventarei horas se for preciso para poder continuar a vir aqui, e me deliciar com a sua escrita.
E claro, parabéns pelo 1º lugar também, fiquei feliz por você, o seu texto realmente não poderia ter ficado em outra colocação se não essa.

Beijo grande. :)

Karine Lima disse...

Da outra vez que vim no seu blog, estava com pressa e nem deu tempo de colocar um comentário decente. Estou passando aqui pra dizer que adorei teus textos, e o jeito que tu se expressa em palavras é simplesmente lindo! Depois que terminei de ler este texto me senti uma outra pessoa! Parabéns pelo teu talento, beijo.

http://livreelouca.blogspot.com/