segunda-feira, janeiro 10, 2011

(In)imaginável.

 
     Fictício amigo, 
   As minhas palavras, tão dóceis quanto o seu hipotético sorriso, se derramam suavemente diante de seu possível olhar para lhe acariciar os olhos, as quais sonham em envolvê-lo em um laço firme de sinceridade e arrastá-lo abruptamente para a companhia da sua velha amiga, hoje solitária.
  Eu nunca lhe ofereci um nome - e penso que igualmente não me apresentei - nem mesmo permiti que as palavras que se formavam em você saltassem de seus lábios e dançassem até os meus ouvidos. Acho que você tinha lábios. 
  Hoje, eu te vejo tão invisível como eu sempre determinara, mas devo admitir que ainda ouço o tamborilar de seus batimentos cardíacos, embora, orgulhosamente, eu não tenha confessado isso antes. 
  Desculpe-me, mas o meu olhar e carinho nem por um átimo lhe pertenceram, imitando a minha amizade. Porém, lembro-me com perfeição, do rumor suave que os seus pés cantavam ao tocar o chão; E da sua respiração que me acalentara em diversos momentos, espantando sem alarde os monstros que eu mesma criara no pretume da noite, em minha própria e interna escuridão. 
  Pena que eu gastara furtivamente toda a minha criatividade inventando fantasmas, dando-os vida e colorindo-os, e nunca valorizei a sua presença, nunca o abracei ou redecorei. Ou pior, talvez, eu a tenha desprezado. Criança cega, com um coração também cego - O meu perfil se enquadra sem questionamentos em tal definição.
   Talvez, eu ainda não consiga me convencer plenamente de que você existiu - ou vive. Pois a minha imaginação sempre fora fraca nesse gênero. Porém, ainda assim, peço-te perdão pela minha ausência nesses cinco mil oitocentos e quarenta dias, nos quais você se dedicou somente a mim.  
   Sugiro que não se assuste, pois ironicamente hoje sou eu a invisível. Espero, com esperança, que você receba esta carta e me permita ocupar um terço da sua imaginação, como eu nunca o permiti.
   Com carinho, dúvidas e dívidas.





Pauta para o projeto BloínquesEdição Cartas. 
Texto escrito dia O6 de Janeiro de 2O11.

13 comentários:

Arianne Carla disse...

Nossa! Que vocabulário belo e surpreendente rico! Muito mais do que merecido o primeiro lugar no Bloínquês! Parabéns, Carol. ^^

Marinaq disse...

legal, linddoooo o blog, parabens :D

Felipe Faverani disse...

Oi, Ca, tudo bem?
A cada novo texto seu fica mais difícil lhe formular um comentário, acredita?
É muito merecido esse seu primeiro lugar, meu anjo. Eu acho mesmo que toda evolução deve ser premiada. E evolução é o que a gente vê na sua escrita, nas suas emoções. Dá pra perceber que tudo o que você escreve é com o intuito de organizar a si mesma e isso é muito bonito. Sabe disso. Em um mundo onde as pessoas tendem a ficar cada vez mais confusas e sequer se importam com isso, você desponta como um diferencial. Tudo o que é diferente sempre é válido. E ler o que você escreve é sempre válido.
Parabéns por escrever melhor a cada dia, viu?
Grande beijo.

Danii disse...

O texto ficou muito bom mesmo, mereceu ganhar rs.
Acho todo mundo já teve um amigo imaginário né, aliás, acho que todo mundo deveria ter e não abandoná-lo nunca, eles são especiais. O meu era :B
Bgs:*

Gabriela Lauriano disse...

Hum que texto perfeito Carol.
Seus textos são sempre muito bem escritos,cada palavra se encaixando perfeitamente.
Parabéns,beijo.

Clara disse...

Parabéns! O texto ficou realmente lindo, profundo, até poético. Percebi que vc adora inventar histórias complicadas, cheias de seres e motivos meio 'mágicos'. Adoro, isso é peculiar!

:) Grande abraço!

juduartt disse...

Que texto lindo! Nossa, me lembra quando eu era pequena e tinha um amigo imaginário hihi Enfim QQ Adorei, seus textos são mt bons!
Meu blog: http://prontaparacrescer.co.cc

Au disse...

Carol, saudade de você e dos seus ótimos textos!


Sempre me impressiono com a sua capacidade de usar as palavras... A impressão que tenho é que todas se encaixam.
Concordo com o Felipe, você escreve melhor a cada dia!
E cartas para amigos (imaginários ou não...) antes eram bastante comuns, e atualmente dificilmente alguém faz. Não deveríamos perder o habito. Ainda mais se forem escritas como você fez.

Parabéns por todos os selos, você merece por ser essa simpatia e também por escrever da forma que escreve!



Beijo!

Jorge Lima disse...

Amigos invisiveis, por mais irreal que pareça eles existem quando as pessoas ignoram os seres com sentimentos ao qual chamam de amigos ou coisa mais intima.
Estamos conectados a solidão que temos medo de observar o que está ao nosso redor.
O texto é ótimo, muito complexo e original. Seu tema não se limita a uma só realidade.

EU vou voltar'

Sarah Chaves disse...

Que post lindo, mtoo criatiivo *-* seguindo!

Isabelle. disse...

Me identifiquei do começo ao fim. Só nas primeiras linhas, quando você diz ele não te conhece e que você também não tinha se apresentado...Nossa.
Me senti ali com você, de verdade! Hahaha

Tudo o que você escreve é lindo, Carol. Assim como você, um doce de pessoa :)

Pedro Menuchelli disse...

Me interesso demais por seus textos. São escritos de uma forma maravilhosa, fácil de entender; o que hoje em dia, é bem complicado. De toda forma, agradeço-lhe pelos comentários em meu blog. Fico super feliz. Um grande beijo!

deh ramos disse...

Carolzinhaaa!! Que texto mais lindo, menina.. E que coisa complexa também. Essa coisa de imaginários sempre mexeu demais com a minha cabeça, talvez porque eu seja mais dada às coisas irreais do que às palpaveis, visíveis. Senti uma vibração tão forte vindo aqui. Obrigada por esta oportunidade. É sempre bom te ler!