sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Sou assim: Tão poeira, tão pintura, tão rupestre.

 

  O sol escaldante cobre os meus cachos fio a fio, vestindo-os de ouro. O suor salgado passeia sobre as minhas têmporas, embora, a imobilidade não me abandone. Ainda inerte, eu posso sentir o peso intenso dos seus passos – como se esses pertencessem aos meus pés cansados. Você é o primeiro dia do mês e eu estremeço ao ver a sua constante aproximação. 

 A camada de ar mormacenta e densa que o decora, mais carbono do que ozônio, me sorri sarcasticamente, como se eu fosse a sua próxima vítima. Olho-me ansiosa e o alívio me invade ao ver que ainda não estou vestida de alvo. Porém, viro o rosto retorcido em uma careta e, pondo a mão em meu peito, eu executo um cálculo hipotético almejando saber, sem sucesso, quanto oxigênio ainda me resta. Arquejo ainda mais ao obrigar-me a admitir o quão impossível é anular a chegada de tal dia.


   A conversa que eu mantivera com o passado até outrora fazia-se agradável em demasia, fortalecendo com vigor a nossa antiga aliança; Algemando-me a ele majestosamente. E agora, ao notar os escassos passos que me separam do futuro, desejo instantânea e inconscientemente alongar ao máximo a curta distância que me protege. Planejo aturdida uma fuga insensata, enquanto esquivo-me competentemente do novo que me persegue como quem anseia pela sorte e a busca cegamente.
  
  Confino-me, portanto, na antiga caverna que em mim escondo, com a grotesca pretensão de tardar a visita do futuro que virá a galope. Encolho-me, então, com o empenho de ofuscar-me na quina mais obsoleta das minhas memórias. Cubro-me com o lençol da desusada felicidade e abraço-me ao inesquecível pretérito.

 Observo com cautela as pinturas rupestres que se derramam sobre as paredes da gruta – sobre mim. Tão mortas quanto a minha vontade de seguir em frente, de amar o novo. Não, eu não quero experimentar ou reinventar; Quero apenas cingir com os meus braços lânguidos o álbum de fotografia antigo, o qual fulgura a alegria que se esvaiu entre os meus dedos. Eu desejo o cheiro de velho, isso sim, e a poeira que tanto me rouba risos e espirros – o que garante que ainda vivo e que o meu organismo funciona perfeitamente.

 Eu confesso, portanto, a minha imensa vontade de redesenhar o passado nessas paredes maltrapilhas, e acreditar na magia pré-histórica. E aguardar que todos os bons sentimentos retratados no tabique encham-se de vida, e dancem até a mim magistralmente. Quem sabe, assim, eu não consiga desprender-me do pretérito e permitir que somente as pinturas ocupem esses espaços tão rupestres.

Imagem: Weit

24 comentários:

Maiara disse...

Ler seus textos exige de antemão o verbo sentir, comigo é assim, ele - o verbo -, sempre vem e eu o conjugo com ênfase na primeira pessoa do singular.
Agora senti como se o passado fosse uma mãe, e eu a menina chorona na porta da escola que não quer soltar as suas mãos tão acolhedoras; não quer nada novo, porque o velho lhe cai bem.
Então quando li esse texto pude ver a mim mesma, e muitos outros como eu, acredito que possuem esse mesmo formato para caber em suas palavras, porque elas retratam tão bem sentimentos e verdades. Às vezes até penso que essas combinações já são conhecidas por mim, apesar de causarem um efeito que admira, deslumbra, hipnotiza. E que me faz pensar após cada leitura: Ah, que bom que eu li o texto da Carol. E é isso que estou pensando agora. :)

Beijo grande.

Arianne Carla disse...

Grande Carol! Você e seus textos intensos, sentimentalistas e com grandes pitadas da Lispector, ouso mencionar. Suas palavras percorreram grandiosamente minha imaginação e a sensação de sentir por inteiro a personagem. Beijos meus, flor.

Arianne Carla disse...

Hihi, eu e a Mai relatamos o verbo: sentir, sem ambas saber.

Sabe por quê? Por que tudo aqui se sente, apenas isso. Um sentimento de intensidade.

• cynthia bs disse...

Oi Carol, primeira vez que te visito e estou amando tudo aqui.

Seguindo-te!

Mais tarde venho aqui com mais calma para terminar de ler este texto.

Beijos, ótimo fim de semana **

Grazzie Santos disse...

Que belo texto, posso garantir que este é um dos poucos blogs que me fizeram realmente parar para refletir... Muito obrigada por isso.

Quero desejar muito sucesso pra você e muita inpiração para que possam nascer cada vez mais belos textos como os que eu li.

AH! coloquei seu blog na minha lista de mais lidos, *-*

Beijoos :*

Dani Ferreira disse...

Nossa cah, perfeito. Eu tenho uma certa admiração pelo passado, sempre querendo mais e mais dele, com medo do futuro, com medo de perder as minhas lembranças.
"eu desejo o cheiro de velho, isso sim..." me identifiquei demais com esse trechinho. Me trouxe sensações incríveis seu texto.
Vir aqui me faz pensar se algum dia eu terei essa habilidade de escrever tão bem quanto você. Suas palavras são lindas mesmo :DD
Bgs :*

Felipe Sali disse...

Gosto muito do seu estilo de escrever, é uma leitura agil, dificil, cheio de camadas e tons.

Pena que eu não me lembro o nome do escritor a qual essa escrita me remeteu =/

Entretanto, o seu blog é muito bom, voltarei sempre.

Bjos do Sali.

@anapribeiro_ disse...

Caroline, que texto incrivel! Primeira vez também que estou visitando seu blog, e confesso que fiquei boquiaberta com o rico vocabulário com que você escreve. E sabe, uma pergunta que sempre me intrigou: por que nos prendemos tanto ao passado? É incrivel a forma com que ele nos enlaça, faz uma proteção ao nosso redor, e acabamos tendo medo do incerto futuro.


Adoreeeeeei suas palavras, vou seguir e acompanhar!
Beijos e grande sucesso pra ti.

Clara disse...

Menina, que vocabulário você tem, estava pra te dizer isso há tempos!

Penso que essa vontade de redesenhar o passado nada mais seja do que o amor disfarçado pelo futuro. No fundo todos sabemos que o passado é imutável como a morte, mas nem sempre conseguimos admitir isso e nos apegamos a ele, fingindo esquecer ou não se importar com o presente que passa pela janela...

:) Lindo texto, minha amiga!

Fearless disse...

Lindo texto, escrita perfeita (e um pouco cansativa), e também me pergunto porque nos prendemos tanto ao passado...

beijo.

. pamela moreno santiago disse...

Muito obrigada pelas palavras e pelo selo *--*
Eu também amo vir aqui sempre ler seus textos que são tão maravilhosos e com uma incrível imaginação e inspiração.
Beijos

Minne disse...

Caroline, a primeira vez que visito sua casa e me sinto confortável instantaneamente. Cheguei à me idenficar linha por linha nesse texto, me prendo ao passado constantemente e isso muitas vezes dói. Temos que viver o hoje intensamente pra não se arrepender de nada futuramente. Lindo texto viu ! Seguindo :*

Rafaela disse...

wow! sem palavras *o* AMEEEEI! *-*

André Masoch disse...

Muito bom.
Nao tenho como descrever, mas tens escrito muito bem e acho que tens melhorado.
Continue sempre dessa forma.

Mari disse...

OMG. que lindo seu comentario ;'(
Mas é que aquele texto é uma carta que eu fiz, misturada na tradução da música Victoria Indie Queen do Beeshop, brinquei com a letra fazendo uma interação, mas mesmo assim muito obg pelo seu comentario tá bom ? e ó, amei isso aqui, seguindo ! :*

Alexandre Fernandes disse...

Não dá para fugir de certas promessas, nem fechar os olhos diante de algumas paisagens. Precisamos aprender a ficarmos mais desprendidos, e menos fantoches nas mãos do que nos cerca.

É importante sanar o que vive dentro de nós. E lidarmos com suavidade diante do que se foi, do que veio e ainda virá. Quem sabe, ao prestarmos mais atenção e mais desprendimento, conseguimos visualizar melhor os sentimentos mais importantes que a vida nos oferece?

Beijos!

César Dias. disse...

Adorei o seu Blog, muito intenso, e sentimental, e quando a questão é sentimento... eu adoro estou te seguindo. Abraço, e se puder faz uma visita http://freesante.blogspot.com/
Sucesso!

Ramos disse...

Lembrar de uma dor do passado, é sofrer novamente. Por outro lado, a felicidade é o intervalo entre duas felicidades!
E assim seguimos, lembrando, ficando feliz, com pitadas nostalgicas nas entrelinhas xD

BjauM!


www.suportedamente.blogspot.com

Laryssa disse...

Lindo texto amor!
Cada dia que passa, ou melhor, a cada texto seu, você consegue descrever cada vez melhor a vida, e os viventes!

Beijos!

Pedro Menuchelli disse...

É com muita felicidade que venho ter a sorte de ler um texto como esse. É uma espécie de maravilha saber que existem pessoas que têm o dom de escrever tão bem que podem fechar algumas feridas que temos em nós. Você tem o dom!

Um grande beijo,
Pedro.

Circus disse...

Parece um trecho roubado da dona Clarice Lispector. Você tem bem o jeitão dela de escrever. Lindo, lindo!

- disse...

Muito, muito bom Carol! Belíssimo o texto. Você escreve muito bem, e gostei da maneira que se expressa. Não achei cansantivo, me prendo e não consegui me soltar até ler o fim. Me lembrou muito um poema de Neruda: "Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida..." Mas a vida é disso mesmo, porque é muito mais fácil para um coração abandonado relembrar um passado feliz, do que enxergar o presente na solidão. Estou te seguindo, beijo. :*



Me visite também: http://railmamedeiros.blogspot.com/

Tania T. disse...

Carol você arrasa!!!

Li cada palavra do texto suspirando akii... acho incrivel o seu jeito de escrever!!


BJãoo =*

Jaynne Santos disse...

Esse seu texto, me fez deleitar sobre cada palavra que se fez viver dentro de meus pensamentos. A cada linha que meus olhos curiosos visitavam, mas intensa as palavras me atingiam. Despertando em mim, a cada visita de meus olhos, emoções diferentes.

Beijos flor;